quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Concurso Literário

Todo ano a Fundação Ceperj promove, aqui no Rio, o seu Concurso Literário para o Servidor Público do Estado. Neste ano foram 647 trabalhos (340 poesias e 307 contos) inscritos, e os vencedores, além da premiação em dinheiro, farão parte de uma coletânea publicada pela fundação.
No início dessa semana recebi um telefonema deles, me parabenizando por minha obra "O conto do filho da bela mãe" ter tirado o terceiro lugar. Se não for trote, dia 21 é a premiação. Vamos aguardar.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Veredas



 

Veredas é uma interessante revista eletrônica editada por Ana Mello e Marcelo Spalding. Dedica-se a publicar minicontos e micronarrativas como este "Fatal", de Maria Regina Caetano Soares, que reproduzo abaixo.

Era para ser um final de tarde como outro qualquer na vida de Dimitrius Alexandre. Caminhou rápido sobre a ponte recém inaugurada na cidade em que nasceu, dirigiu-se à parte mais alta e sumiu.
Bonito e eternamente vaidoso, vestia uma roupa linda de morrer.



Em sua edição de outubro, a Veredas publicou meu miniconto "Reconciliação" (já postado aqui).

Quem quiser conferir, o endereço da Veredas é http://www.veredas.art.br/. Boa leitura.

domingo, 3 de outubro de 2010

TerrorZine



TerrorZine é um fanzine eletrônico organizado por Ademir Pascale e Elenir Alves, voltado à publicação de minicontos de horror, a entrevistas com autores nacionais e a dicas literárias dos gêneros horror e fantástico. A edição atual, de nº 21, traz minicontos de 19 autores, e um desses sou eu, com o miniconto "Identidade", já postado nesse blog.

Quem desejar conferir, a TerrorZine é distribuída gratuitamente via download, no endereço www.divulgalivros.org/terrorzine21.pdf.

sábado, 2 de outubro de 2010

Eleições (2)

Dizem que, na eleição para prefeito em 2008, um homem teria entrado numa das salas de uma escola na Zona Sul do Rio de Janeiro para votar. Após passar pelas formalidades necessárias, dirigiu-se à urna e lá ficou.

Quando os mesários enfim perceberam que ele se demorava mais do que o normal, se deram conta também de que o homem em pé diante da urna estava falando sozinho. Sussurrava frases incompreensíveis num idioma que parecia latim, não parando quando lhe avisaram que deveria sair.

Mas a atenção das pessoas na sala seria desviada do homem quando uma mulher de cinquenta e cinco anos, que esperava na fila a sua vez de ir para a urna, começou a chorar sem razão e a dizer que “a morte está aqui, a morte está aqui. Alguém me ajude.”

Reunidos todos ao redor da mulher para acalmá-la, ninguém percebeu a saída do homem junto à urna, que deixou a sala sem ser visto. Quando o próximo eleitor se dirigiu para votar, soltou um grito de susto. No monitor da máquina, a imagem da cédula estava congelada no número 666, independente de qualquer dígito que se utilizasse.

Chamou-se o técnico, mas nem ele resolveu o problema. A urna teve de ser desligada, e a seção eleitoral, fechada.

Mas o dia não terminaria aí. Um dos mesários, rapaz de vinte e seis anos e funcionário de um banco, tomado de um inesperado cansaço, pediu para sentar-se. Segundo ele, de repente faltara-lhe fôlego e precisava se apoiar em algo. Sentaram-no num sofá na diretoria da escola, e lá ele adormeceu.

Apenas no fim do dia, encerrada a votação, lembraram dele. Foram até a diretoria e tentaram acordá-lo. Em vão. O mesário havia morrido.

Houve quem culpasse o homem estranho que falava em latim. Houve quem culpasse a mulher que chorava. Houve até quem culpasse a urna, que estaria assombrada. O fato é que justamente nessa escola é que eu vou votar amanhã, e agora não consigo dormir direito pensando nisso. Não basta o terror de não ter em quem votar, ainda precisamos driblar a morte para cumprir o nosso dever de cidadão.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Eleições (1)

 Havia um senador que, diante da ameaça de não se reeleger, não titubeou. Reuniu os ingredientes necessários a um ritual e, à meia noite, invocou o diabo.

Não sabia se daria certo. Possuía há mais de dez anos o ritual numa folha de papel dada por um ex-padre já falecido, e nunca tivera necessidade de levá-lo a termo. Agora que a necessidade aparecia, imaginou se não estava diante de mais uma crendice, como as tantas que esse miserável povo brasileiro inventa para maquiar a sua ignorância, a sua selvageria, a sua nojeira.

Quando a sala em que estava começou a feder a enxofre, ele teve certeza de que daria certo. Do lugar marcado com sangue no chão, uma chama começou a subir e a tomar forma de homem.

“Boa noite, senador”, disse, afinal, o diabo materializado.

“Preciso de sua ajuda”, gaguejou o senador da República. “Esse ano posso perder meu mandato. Dois senadores serão eleitos para o Congresso Nacional, e as pesquisas dizem que estou em terceiro lugar, caindo para quarto. Eu não posso perder essa vaga. Não posso. A eleição é daqui a três dias. Estou desesperado. Não sei como reverter esse quadro.”

“O senhor quer que eu seja seu cabo eleitoral?”

Para alguém que vivia no inferno, o diabo tinha um senso de humor impecável.

“Preciso”, pediu o senador, “que você elimine meus concorrentes. Há uma mulher. E um viado. Um sodomita. Que estão na minha frente. Se eles morressem, eu seria imbatível. Você pode fazer isso.”

“Posso. Claro. Mas há um preço.”

“Eu sei. A minha alma. É sua.”

“Hoje não. Hoje quero fazer uma brincadeira diferente. Não estou interessado em sua alma.”

“Não?”, o senador sorriu, aliviado. Ia ganhar a eleição sem precisar vender a alma ao diabo. Seria mais fácil do que imaginava. “E o que você quer de mim?”

“A sua neta.”

“Minha neta?”

“Sua neta.”

“Mas ela é uma criança. Tem só quinze anos.”

“E é virgem. Eu sei.”

“Você não prefere a minha alma?”

“Claro que não.”

“Eu posso conseguir outra menina para você. Da mesma idade. Virgem igual. Possuo contatos.”

“Não tenho o dia todo, senador. É pegar ou largar.”

“Eu pego. Eu pego. Pode levar a minha neta. Quer que eu vá buscá-la?”

“Não precisa. Eu sei onde ela dorme.”




quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Orégano

"Passe o orégano, por favor."

Seria mais fácil matar você. Tão mais fácil do que aturar-lhe diariamente as acusações, as cobranças, as agressões. Tão mais simples do que fingir ser amor, e não rotina, amor, e não carência, amor, e não dinheiro, a cola que ainda nos mantém unidos depois de todos esses anos. Tão mais honesto do que sorrir diante das luzes e das fotos e da inveja dos que sonham com um convívio tão longo e harmonioso quanto o nosso. Tão menos doloroso do que levar essa sobrevida de quem foi condenado a apodrecer segurando a mão de alguém que se odeia. Tão mais belo, mais intenso, mais verdadeiro, seria matar você. E no entanto...

"Pois não, meu amor. Aqui está."

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

"O Adversário" na Darkness Rising

Chegamos por volta de 14:30, eu, Alessandra e Cláudio, no Clube do América, onde seria realizado o evento. A mesa redonda da qual participaria começou com atraso, e vários autores presentes, eu inclusive, não tiveram tempo para falar. Por sorte, me convidaram depois para participar de outra mesa redonda, sobre o mercado para a literatura fantástica no Brasil. Dessa vez deu pra falar, mesmo sem entender nada do assunto.

O evento foi agradável, os organizadores simpáticos, e consegui trocar algumas figurinhas com o escritor Gerson Couto, autor de Hemisfério-Dorso (blog aqui). Não consegui, no entanto, me livrar da sensação horrível de que uma presença gelada, escura e triste circulava pelos mesmos locais que eu, me acompanhando. Perguntei disfarçadamente a Alessandra e Cláudio, mas eles pareceram nada sentir.

As fotos abaixo são cortesia de Cláudio Beserra.

A primeira mesa


Gerson Couto, eu e Andrés Carreiro


A segunda mesa


Discorrendo sobre o mercado da literatura fantástica no Brasil


O salão do Café Literário


O estande


Um autógrafo


Outro autógrafo


Com Alessandra


Com Cláudio





sábado, 25 de setembro de 2010

Gui

"Acho que estou vendo coisas", ela disse.

"Vendo o quê?", ele continuou olhando a TV.

"Um anãozinho. Tipo um duendezinho. Estava ali, perto da estante. Quando me viu, correu lá pra dentro."

"Ok."

Ela sentou junto dele e aconchegou-se em seus ombros. Na TV, o apresentador perguntou à criança se ela estava pronta para comer um prato de vermes em troca de um ingresso para o show de uma cantora baiana, com direito a visita ao camarim.

"Claro", respondeu a criança.

"Então pode cair de boca", disse o apresentador. "E bom apetite."

Enquanto a criança comia vermes, o anãozinho passou de novo pela sala.

"Você viu?", ela perguntou.

"Vi."

Ele se levantou e foi atrás do anãozinho. Ela se levantou também.

"Fica aí", ele mandou.

"Toma cuidado."

Ela ficou olhando ele seguir pelo pequeno corredor depois da sala onde estavam. Entrou no primeiro quarto, que eles usavam como escritório.

"Gui?", ela perguntou. "Está tudo bem?"

Ele não respondeu.

"Gui?"

"Está."

Na TV, a criança terminara o prato de vermes e estava pedindo mais.

"Gui?"

Dava para ouvir algum barulho vindo do escritório. Gui estava revirando tudo, procurando o anãozinho.

"Gui? Gui?"

Era costume dele não responder. Dessa vez, porém, ela ficou preocupada. Os ruídos no escritório haviam cessado, e ele não respondia.

"Gui, responde. Por favor."

Quando Gui voltou para a sala, estava diferente. Não olhava para ela. Olhava para o chão.

"Gui, você encontrou o anãozinho?"

"Não."

"Está tudo bem?"

"Não."

Gui caminhou até a janela e a abriu. Passou a perna esquerda para o lado de fora do prédio. Estavam no nono andar.

"Gui, o que você está fazendo? Gui? GUI!"

Gui passou o resto do corpo e se jogou. Ela pôs-se a gritar, chorar, entrou em crise. Na TV, a criança não parava de comer os vermes que, agora, saíam-lhe também pelas narinas e pelos olhos.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Mãe

“Fique comigo.”

Foi a única coisa que a mãe dele pediu. A velha estava no leito de morte, sozinha, com medo. Tudo o que pedia era para não morrer abandonada.

“Fique comigo, por favor, fique comigo.”

Ele estava no bar quando ela morreu. Bebendo e reclamando. Contava, para quem quisesse ouvir, o quanto já havia gasto com internação, remédio, médico. Que despesa, agora, só com a funerária. Foi nesse ponto da história que o celular tocou, e ele recebeu a notícia do óbito. Como que transformado em outra pessoa ele se calou, saiu do bar e foi procurar um canto para ficar chorando. Os olhos ainda inchados quando chegou ao hospital.

Durante o enterro precisaram ampará-lo. Só depois de consumada a perda é que foi dar-se conta do quanto gostava da mãe, e chorou sem parar quando o caixão foi enfiado na gaveta e lacrado com cimento. Em casa a vizinha, amiga e da mesma idade da mãe, veio fazer-lhe companhia. Ele já não chorava, mas também não comia. Recusava tudo e não saía da cama, corroído pelo remorso.

Às dez da noite a vizinha não quis ficar mais lá. De repente, ficar na casa da defunta deu-lhe uns arrepios, e ela ficou com medo. Pediu desculpas, disse a ele que tinha afazeres em casa, convidou-o a visitá-la. Podia até passar a noite em sua casa. Ele, no entanto, não quis sair da cama.

Passou um tempo e ele ouviu um ruído no quarto. Quando abriu os olhos precisou acostumar-se com a escuridão, até perceber um vulto no meio das sombras.

“Mãe?”, ele perguntou. “Mãe, é você?”

Tentou levantar, mas o corpo estava como preso, colado à cama. Forçou a vista. Parecia ter mesmo alguém no quarto.

“Mãe?”

Na manhã seguinte havia perdido a sensibilidade nos pés. Não os sentia mais. Pisar o chão se tornara o mesmo que pisar o nada, e ele se desequilibrava ao tentar andar. Precisou da ajuda da vizinha para ir ao médico. Fez exames. Exames que não acusaram nada. Precisou da vizinha de novo, ao voltar para casa.

À noite, o vulto nas sombras permanecia no mesmo canto escuro do quarto. Não respondia a seus pedidos de perdão. Nem se comovia com seu choro assustado. Ele passara a pedir à vizinha que deixasse a luz acesa ao sair, mas bastava ela fechar a porta que a luz do quarto se apagava sozinha. Ele implorava para que a mãe morta o deixasse em paz.

Passados dois meses, ele não andava mais. Para tudo necessitava cadeira de rodas. A perda da sensibilidade evoluíra até o alto das pernas, transformando-o num aleijado. A vizinha cuidava dele durante o dia, e era a única pessoa que acreditava quando ele culpava a mãe por não poder mais andar.

“Durma aqui”, ele pediu à vizinha. “Só hoje.”

Ele sabia que logo a mãe estaria no quarto. Esperava que, com a vizinha ali, ela não viesse.

“Fique. Por favor.”

A vizinha estava com o coração apertado. Gostava dele como a um filho, mas não ficou. E, naquela noite, de novo, ao bater a porta, o vulto no escuro apareceu.

“Por que a senhora faz isso?”, ele estendia as mãos à mãe e chorava. “Por que me deixou assim?”

Como sempre, não houve resposta. Mas dessa vez seria diferente. Sem nada dizer, o vulto passou diante da cama onde ele estava e dirigiu-se até a porta. Quando saiu do quarto, deixando no ar um cheiro de folhagem seca, ele entendeu apavorado que o vulto havia ido atrás da vizinha, e então gritou. Mas não conseguiu sair da cama.

A vizinha nunca mais retornou. O vulto, no entanto, toda noite vem vê-lo. Sem comer há dias, ele emagreceu muito, e passa todo tempo com os olhos voltados para um ponto qualquer do quarto. Só lembraram dele quando o mau cheiro já ultrapassava as paredes do apartamento. Quando enfim tamparam com cimento a gaveta mortuária, ninguém reparou que o caixão pesava como se carregasse dois corpos no lugar de um.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Darkness Rising

No próximo domingo, dia 26, o Clube do América vai sediar o primeiro Darkness Rising do Rio de Janeiro. Trata-se de um evento dedicado a séries, filmes e literatura voltados ao horror, ficção científica e literatura fantástica. Os leitores do Rio que quiserem me conhecer podem aparecer por lá, pois farei parte de uma mesa redonda que começa às 15:40. Mais informações e programação completa, no site do evento: http://darknessrisingevento.com (pra quem não tem banda larga, a página demora um pouco pra carregar, mas vale a espera).

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Filho

O filho passara a sonhar. De noite ela acordava ouvindo a voz dele no quarto. Eu vi o sol, dizia ele. Eu vi o sol. De manhã o menino não lembrava do sonho, nem de ter visto o sol.

Então ele adoeceu. Ficou magro, pálido e feio. Só durou mais três dias.

Em dezembro a mãe sozinha, cansada de ser sozinha, trouxe para casa um menino de rua com a mesma idade do filho morto. Comemoraram juntos o natal e o ano novo.

O filho morto, enquanto isso, estranhava o frio no corpo, mesmo estando diante do sol. Sentiu falta da mãe, e olhou para trás embora soubesse que não devia.

O que viu foi um outro menino com a mãe que era sua.

O filho morto sentiu ciúmes.

Então retornou.

domingo, 19 de setembro de 2010

Fui num aniversário ontem.

- E aí, Maurício, quanto tempo, e as novidades?

- Ah, lancei um livro!

- Mesmo? De que andar?

sábado, 18 de setembro de 2010

Reconciliação

Bateu-lhe na cara e disse que ele não prestava. Que não tinha vergonha. Que era um porco, cachorro, pilantra. Que não podia ter feito aquilo. Não com a melhor amiga dela. Porco, cachorro, pilantra. Bateu-lhe na cara de novo.

Mas quando ele, depois de apanhar, disse que a amava, ela parou de bater.

“Jura?”, a voz dela saiu tremida como o caminho da lágrima.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Tio Jorge

"Não quero ir", falou a irmã mais nova..

"Nem pensar", disse a irmã mais velha. "Não vou deixar você sozinha. Você vai ficar com Tio Jorge."

Tio Jorge era o vizinho. Não era parente.

"Não gosto do Tio Jorge."

"Para de besteira. Já falei que você fica com ele. Mamãe só volta amanhã e não vou deixar de encontrar o Biscoito por tua causa."

Biscoito era o namorado da irmã mais velha.

"Tio Jorge faz coisas comigo", a irmã mais nova choramingou.

A irmã mais velha estava se vestindo, não deu atenção. Quando ficou pronta, puxou a outra pelo braço. A menorzinha estava chorando baixo quando Tio Jorge abriu a porta.

"O senhor fica com ela um pouco?", a mais velha perguntou. "Preciso encontrar meu namorado."

"Claro", a face dele iluminou-se com o pedido. "Eu cuido dela. Pode ir."

"Eu volto às onze pra pegar ela. Pode ser?"

"Não precisa se apressar. Eu durmo tarde."

"Obrigada, Tio. Marcelle, vê se não dá trabalho pro Tio Jorge."

Quando a porta se fechou e Marcelle se viu, de novo, sozinha com Tio Jorge, o medo foi tanto que a bexiga não suportou.

Mas Tio Jorge não se importou com isso.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Li o texto abaixo no site Digestivo Cultural. Isso sim é uma história de terror.


Confissões de um escritor
Charles Kiefer

Recebi, meses atrás, a prestação de contas de direitos autorais do primeiro trimestre de 2010, de uma de minhas editoras. Um dos livros de que mais gosto, e ao qual dediquei um esforço especial, Logo tu repousarás também, de contos, vendeu, em três meses, 3 exemplares! Isto mesmo. Do Oiapoque ao Chuí, vendi três exemplares. Receberei, sobre estas vendas, R$ 8,47 (oito reais e quarenta e sete centavos)!

Esta é a realidade dos escritores brasileiros. Certo, talvez seja apenas a minha realidade. Na década de 80-90 do século passado, eu vendia milhares de exemplares de Caminhando na chuva, por semestre. Hoje, em editora grande, publicado em São Paulo, vendo entre 25 e 40 exemplares por bimestre. Vendo hoje cinquenta vezes menos do que vendia há uma década.

O que houve? Por que os meus leitores me abandonaram?

Em primeiro lugar, porque os meus textos ficaram obsoletos. A realidade, e é sobre isso que escrevo, não tem mais apelo mercadológico. Quem se interessa pela vida de sem-terras e pequenos agricultores, e outros infelizes e deserdados que habitam a minha Pau-d'Arco imaginária?

Tentei o assassino em série, migrante na capital, e não acertei. Escrevi um livro complicado, demoníaco, como sugeriu um crítico local, O escorpião da sexta-feira, que assusta, incomoda, e os novos leitores querem amenidades. Na era do hedonismo e da imortalidade, lembrar às pessoas que um dia elas irão repousar sob sete palmos de terra, como se dizia antigamente, é fazê-las largar o livro antes que ele queime as mãos desavisadas.

Em segundo lugar, porque ninguém mais compra livros. Ao menos não os meus! Enquanto o meu blog já foi lido por mais de 12 mil pessoas nos últimos três meses, vendi 3 exemplares de meu melhor livro de contos!

Em terceiro lugar, porque o número de escritores, na última década, multiplicou-se geometricamente, enquanto que o número de leitores (de livros) aumenta aritmeticamente, se é que aumenta. (Suspeito de todas as informações que dizem que os livros estão vendendo cada vez mais). Provei, estatisticamente, que a Feira do Livro de Porto Alegre perdeu, no último lustro (alguém ainda se lembra que isso significa quinquênio?), mais de 30 por cento de seus compradores.

Pela inflação no mercado brasileiro de escritores, sou diretamente responsável, pois minhas oficinas lançam no sistema literário dezenas de excelentes novos autores e autoras a cada ano. Há 15 anos, um grande escritor dos pampas me disse: "Pô, tu estás jogando contra a gente! Daqui a pouco, não teremos mais leitores".

Ele tinha razão.

Só me resta, agora, convencer aos meus alunos a comprarem livros. Alguns não compram sequer os lançamentos dos colegas. Não conheço tipo social menos solidário que escritor. Eu mesmo, que compro uma boa quantidade de livros de meus alunos em seus lançamentos (mas somente obra que tenha passado pelo meu crivo editorial), não o faço por caridade. A despesa que tenho já está embutida no preço da mensalidade...