quarta-feira, 23 de julho de 2014

Nariz



Assoou o nariz e ficou olhando. Havia sangue no lenço.

Escondeu no fundo do bolso o pano ensanguentado, com medo de que alguém percebesse.

Precisava sair da multidão. Precisava sair antes que fosse tarde demais.

Foi então empurrando as pessoas que simulavam felicidade, que falavam alto, que riam e cheiravam a álcool e agiam como crianças mimadas e irritantes, até chegar à escada que levava ao segundo andar.

Quando escorregou no piso molhado, teve a certeza de que não conseguiria.

Mas alguém lhe segurou o braço, impedindo a queda. Alguém lhe perguntou se estava tudo bem. Alguém olhou para ele e viu.

“Ei, você está sangrando.”

Era tarde demais. Ele tentou se desvencilhar. Tentou a escada. Mas era mesmo tarde demais.

Faltou tão pouco.

O candidato seguinte já estava em posição. Esperava apenas o nariz começar a sangrar.




terça-feira, 22 de julho de 2014

Colecionador



Olhando, da janela, a mãe e o bebê na pracinha, pensou: “Não tenho um desses. Tenho tantos, e ainda não tenho um desses.”

Atravessando a sala cheia de estantes, prateleiras, vidros, líquidos, ferramentas, cheiro de formol e silêncio fúnebre, ele saiu.

Quando voltou, a coleção ganhara mais um item.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

Combate



Jurou jamais pensar naquele nome de novo.

E enquanto combatia o próprio desejo viu-se de repente, novamente, diante do mesmo nome.

O mesmo nome que jurara esquecer.

O mesmo nome compondo as mesmas formas que lhe derrotavam a vontade.

E nas mesmas formas a mesma história era contada, e o mesmo final o abatia.

Arrancou os dois olhos num impulso.

Correu caindo até a janela aberta e estendeu ao sol as mãos ensanguentadas.

Implorou a luz.

Mas agora a sua vida era escuridão.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

O braço



A mancha que surgira no braço, um dia antes, havia crescido.

De minúscula, se alastrava.

De inofensiva, causava desconfiança e receio.

Vieram as dormências, depois dor. Até que o braço tornou-se escuro e quebradiço, como vidro.

No hospital, tiveram de amputá-lo, abaixo do ombro.

*

Quando sonha, ainda possui o braço perdido.

E é com ele que acena para um vulto no final do corredor, que está sempre ali e nada diz. Apenas observa cada um de seus passos.

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Nos olhos



Olhava bem de perto.

Até embaçar. Até confundir.

E – quando aquela coisa sem forma começava a atravessar-lhe as retinas provocando uma dolorosa escuridão – até lacrimejar vinho tinto.

terça-feira, 15 de julho de 2014

A presença

Por onde passava deixava um cheiro. Um frio. Uma sombra.

E quem não tinha a sorte de evitá-lo, não ficava para contar.

Atrás do seu rastro havia sempre uma porta fechada. Um mau pressentimento. Uma noite estranhamente silenciosa.

sábado, 26 de abril de 2014

Conversa de bêbado em Dostoiévski

"Mas escuta: por mais estúpido que seja, penso; apesar de tudo, sempre estou pensando, de quando em quando, naturalmente. Será possível, cismo eu, que os diabos se esqueçam de me agarrar com seus ganchos, depois de minha morte? Ganchos... ganchos... porém onde os guardam? De que são feitos? De ferro? Mas onde os forjam? E então será que eles têm no inferno fábrica disso? Porque lá no convento há gente que imagina que no inferno há teto; acho assim mais delicado, mais culto, mais luterano. E na verdade: não é indiferente que tenha teto ou não o tenha? Mas aí está, precisamente, o diabo da questão! Porque, se não tem teto, tampouco tem ganchos. E se não tem ganchos, tudo se desmorona. Isto é... torna-se inverossímil. Quem então vai me levar enganchado? E se não me levam enganchado, que acontecerá então - onde está a verdade, neste mundo?" ("Os Irmãos Karamázovi")