quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Infância





“Você nasceu com duas cabeças”, disse o irmão mais velho ao caçula. “Uma inteligente e outra burra. Tiveram que cortar uma delas. Só que cortaram a cabeça errada. Por isso que você é assim.”

Contrastando e combinando com a crueldade do irmão mais velho, que o levava a fazer afirmações como esta, havia a ingenuidade do mais novo, que o levava a acreditar.

Foi então o irmão mais novo consultar a mãe.

“Nasci com duas cabeças? Cortaram uma delas? Ficou apenas a burra, mamãe?”

A mãe puxou carinhosa o pequeno para junto de si.

“Claro que não. Você nasceu normal e lindo e nós o amamos muito. É um menino inteligente e querido. Eu e seu pai somos muito felizes por ter você conosco. Você traz luz às nossas vidas e nos tornou pessoas melhores.”

Com lágrimas nos olhos o menino abraçou a mãe e o pai que estava por perto. Depois foi correndo esfregar na cara do irmão as palavras que guardaria na memória para o resto da vida.

“Será que eu fui convincente?”, a mãe perguntou ao pai. “Será que ele acreditou?”

“Deve ter acreditado”, disse o pai. “O menino é muito burro.”

“Ainda acho que não deveríamos ter cortado uma das cabeças. Ele poderia muito bem ficar como o avô.”

“Ah, não. De monstro na família, basta o teu pai.”

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Aniversário



“Por que tanta escuridão?”

“A noite é assim.”

“Não na noite. Nos seus olhos.”

Ela perguntava e ele mais e mais se fechava.

Um dia, para animá-lo, decidiu fazer uma festa surpresa no aniversário dele.

Convidou muita gente para esperá-lo, as luzes apagadas, quando chegasse em casa.

Qual não foi a surpresa, no entanto, quando ele entrou sorrateiro e, diante da luz acesa e dos amigos e familiares, não teve onde esconder a criança morta que trazia nos braços, com o bracinho ensanguentado ainda entre os dentes.




terça-feira, 5 de agosto de 2014

Rotina



Era uma tosse que não cessava, e na certeza da morte ele foi vivendo.

“Não para de tossir, doutor”, a mulher lamentou.

O médico passou um remédio que não serviu.

Ele acabou morrendo como havia previsto.

Ela, na tristeza da saudade, morreu logo depois.

No dia seguinte, era como se jamais houvessem existido.

segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Rede social

Todos os dias ele olhava para ela.

As postagens ele lia e relia, e ainda assim era nas fotos que se acabava.

Desejava tanto, que chegava a doer. Gozava gritando o nome dela na frente do computador.

E no dia que ela postou um selfie mais provocante, o psicopata que ele gerava enfim nasceu.

Começou a anotar todos os lugares que ela frequentava e, inconsequente, expunha na rede.

(Quando a sua vida é um livro aberto, fica fácil procurar no índice o trecho que interessa.)

Enfim ele a viu pessoalmente. De longe. Passou a segui-la. Sabia onde ela morava, onde trabalhava. Tinha registrados todos os seus horários.

Sequestrou-a. Estuprou-a diversas vezes. Não satisfeito, matou-a, e cobrindo-a com cera fez uma estátua, que colocou num altar dentro do quarto.

Ainda assim, não estava satisfeito. Era preciso que ela fosse completamente dele, mas ele não a sentia assim. E não teria mais como possuir aquela mulher coberta de cera. Queria mais.


Então descobriu, na lista de amigas dela, outra que o encantou.



sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Família

“Jefferson, estou ouvindo umas batidas no sótão.”

Jefferson foi olhar. Ele não havia escutado nada, mas poderia haver ratos lá em cima. Acabaram de se mudar, ele e Lidiane, nunca se sabe. Não custava nada ir ver.

Acendeu a luz e subiu os degraus que levavam ao pequeno compartimento entre o teto e o telhado. No meio das caixas que trouxeram, encontrou um grande baú.

Tinha certeza de que aquele baú não era seu. Nem de Lidiane.

Destrancou o baú e abriu. Havia um menino lá dentro. Um menino muito magro e pálido, com um olhar vazio. Mas estava vivo, e não demonstrou surpresa quando Jefferson o resgatou.

Quando Lidiane viu o menino levou um susto, mas se encantou. Quis adotá-lo. Jefferson não achou uma boa ideia, mas sempre fazia as vontades dela.

O menino custou a falar, mas acabou explicando que estava brincando de esconder com o irmão e entrara ali. Não conseguira mais sair.

“Mas isso tem quanto tempo?”, perguntou Jefferson. “Essa casa estava vazia há pelo menos vinte anos. Foi o que disse o corretor.”

O menino não respondeu.

*

Cuidaram da criança. Levaram ao médico, trataram, deram amor.

Jamais brincaram, no entanto, de esconder com ele.



quinta-feira, 31 de julho de 2014

Amor



Quando chegou o pacote com o nome da outra no remetente, ele ficou preocupado.

Sorte dele, que a esposa não estava em casa.

Abriu. Estava embalado elegantemente, com detalhes vermelhos e perfumado. Quem embalara, o fizera com amor. Ele até abriu com cuidado, para não rasgar.

Dentro, uma surpresa. Havia pelos pubianos dentro da caixinha. Pentelhos. Junto, um bilhete.

“Olha como eu te amo, meu amor. Quem mais faria isso por você?”

Tratou de jogar tudo fora. Não tocou no assunto com a esposa.

No dia seguinte, outro pacote. Tão trabalhado quanto o primeiro. Desta vez, no entanto, além da surpresa ele levou um susto.

Havia um dente dentro da caixa. Um dente ensanguentado.

E outro bilhete.

“Estou lhe enviando os seus pertences, meu amor. Tudo meu é seu. Tudo meu é propriedade sua. O que você quer de mim? Os meus cabelos? São seus. Os meus seios? São seus também. Vou mandar tudo para você. O que você deseja? Diga. Eu dou.”

Viu que ela não ia parar. Antes que começasse a enviar dedos e orelhas, foi até a casa dela.

“Pare com isso”, ordenou. “Não me procure mais. Não me envie mais nada. Me esqueça.”

Ela não falou. Parecia feliz. E, para mostrar a sua felicidade, sorriu um sorriso faltando o dente da frente. Um sorriso aleijado.

Depois, sem nada dizer, ela tirou a roupa. Abandonou para o lado as vestes e se prostrou aos pés dele, de quatro, entregue em sacrifício. Então se virou devagar, ainda de quatro, na direção oposta.

Ele olhou as ancas brancas na sua frente. A mais preciosa oferenda. E se serviu.

A esposa, enquanto isso, sofria um acidente de carro ao retornar para casa.