Só porque gostava de ficar sozinha no cemitério, os pais arrumaram-lhe um psiquiatra.
Na terceira semana, descobriu-se apaixonada pelo psiquiatra. E estava certa de que era correspondida, apesar da aliança cintilando no dedo dele.
À noite sonhava com ele e acordava chorando. Queria continuar a dormir e sonhar.
Desejo dolorido e doentio de presenteá-lo. De dar a ele um pouco do que ela era. Não poderia ser qualquer presente. Tinha que sair dela.
Separou então numa caixa um punhado de fios de cabelo. Acrescentou um dente que ela mesma arrancara com o alicate. Um naco de carne da perna que ela mesma cortara. A unha de um dos dedos da mão. E um vidrinho cheio de seu próprio sangue. Forrou tudo com uma folha de papel na qual escreveu um poema declarando seu amor, e deixou na porta dele a caixa com os presentes.
Quando ele encontrou a caixa, não entendeu. Depois, entendeu. Mas nada falou a ninguém.
Na consulta seguinte ele a seduziu. E cobrou dela o amor verdadeiro que lhe foi prometido. Quis vê-la cortar-se de novo, machucar-se, humilhar a si mesma na frente dele. Viu.
Pela primeira vez ela estava feliz. Cada novo pedaço de pele que arrancava, cada gota de lágrima e de sangue que vertia para ele, era amor que compartilhava. Por isso ela sorria quando estava chorando, amava quando estava sofrendo. Só não sabia que, enquanto achava que vivia, estava na verdade definhando.
Doente, fraca, ele não a quis mais. Abandonou-a num hospital. Aos pais dela, disse que era um caso perdido. Nunca foi visitá-la.
Ela parou de falar, parou de olhar, parou de comer.
Ele, enquanto isso, está quase conseguindo convencer a esposa a deixar-se furar com pequenas agulhas.
Blog do romance "O Adversário", de Maurício Limeira
+ informações de outros textos do autor.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Recebi por email:
O velhinho, mineiro de Berlandia, está no hospital, nas úrtimas...
O padre está ao seu lado para dar-lhe a extrema-unção.
Ele lhe diz ao ouvido:
- Antes de morrer, reafirme a sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo e renegue o Demônio.
Mas o velhinho fica quieto.
Ao que o padre insiste:
- Antes de morrer, reafirme a sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo e renegue o Demônio.
E o velhinho... nada.
Então o padre pergunta:
- Por que é que o senhor não quer renegar o Demônio?
O velhinho responde:
- Enquanto eu num soubé pronde vou, num quero ficá de mar cum ninguém !
O velhinho, mineiro de Berlandia, está no hospital, nas úrtimas...
O padre está ao seu lado para dar-lhe a extrema-unção.
Ele lhe diz ao ouvido:
- Antes de morrer, reafirme a sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo e renegue o Demônio.
Mas o velhinho fica quieto.
Ao que o padre insiste:
- Antes de morrer, reafirme a sua fé em nosso Senhor Jesus Cristo e renegue o Demônio.
E o velhinho... nada.
Então o padre pergunta:
- Por que é que o senhor não quer renegar o Demônio?
O velhinho responde:
- Enquanto eu num soubé pronde vou, num quero ficá de mar cum ninguém !
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
"Louco eu não sou e com certeza não estou sonhando, mas amanhã vou morrer e hoje quero libertar minh'alma."
(Edgar Allan Poe, O Gato Preto)
(Edgar Allan Poe, O Gato Preto)
terça-feira, 7 de setembro de 2010
Casal
"Está doendo muito?", ele perguntou.
"Hum-rum", ela balançou a cabeça.
"Posso continuar?"
Ela não respondeu. O suor descia pela testa e passava pelo olho, parecendo uma lágrima.
"Pode", ela tremeu.
Ele então continuou.
"Hum-rum", ela balançou a cabeça.
"Posso continuar?"
Ela não respondeu. O suor descia pela testa e passava pelo olho, parecendo uma lágrima.
"Pode", ela tremeu.
Ele então continuou.
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
O capítulo 2
O telefone só dava sinal de ocupado.
Teria de ir até o Hotel Camilo e tirar Nicole de lá. Perguntava a mim mesmo de que maneira faria isso, enquanto dava partida em minha motocicleta. Ou inventava uma desculpa que fosse muito bem elaborada, ou dizia a verdade. Escolher uma das opções era o que confundia e atormentava.
Mas atormentava-me também a desagradável impressão de estar sendo seguido. O que era pouco provável, visto que Casemiro, o assassino que agora me queria morto e de quem eu estava fugindo, decerto sabia exatamente onde me encontrar. Talvez até já estivesse lá, à minha espera. Mesmo assim a impressão permaneceu, firme como uma rocha, e procurei ir o mais rápido que era possível, não parando em nenhum dos sinais vermelhos que me surgiam à frente. Seguia tenso, temeroso, mas estranhamente decidido. Resolvera que a sucessão de mortes, amontoando-se ao meu redor em menos de um mês, havia se encerrado com a mulher no terraço. A próxima, se houvesse, teria de ser a minha. De ninguém mais.
Parei em frente ao hotel, mas do outro lado da rua. Não sem antes averiguar se a figura magra, comprida, de poucos cabelos e barba por fazer, que para mim se tornaria a encarnação do próprio diabo, estava por perto. Provavelmente estava, mas não o vi. Talvez escondido, apontando-me uma arma. Talvez lá dentro, no hotel. Via-o em todos os rostos enquanto esperava na recepção que me anunciassem, e a cada passo que dava para dentro em direção ao apartamento de Nicole imaginava-o à espreita atrás de uma porta, numa curva do corredor ou pelas escadas. Era improvável que ele tentasse qualquer coisa dentro do hotel, pouco seguro. Mas eu já conhecia a fama de Casemiro, e seus últimos atos indicavam que não era de todo absurda a possibilidade de uma ação em local aberto e movimentado.
Foi então que me dei conta, já na porta do apartamento de Nicole, de que não havia visto uma pessoa sequer circulando pelos corredores, nem ouvi barulhos de qualquer natureza. Onde estavam os funcionários, os hóspedes?
Não pude prosseguir com minha desconfiança, pois naquele instante a porta abriu-se e o sorriso de Nicole proporcionou-me um imenso sentimento de alívio. Puxando-me para o interior do apartamento, a boa amiga a princípio abraçou-me com o entusiasmo das pessoas queridas que há muito não se vêem. Depois estranhou minha presença ali.
- Mas você não disse que tinha de sair?
- Eu tinha. E tenho. Só que preciso que você venha comigo. Está ocupada?
- Ocupada? Não.
- Ótimo. Então vamos arrumar suas coisas que eu vou tirar você deste hotel. Ligue pra recepção e peça o check-out.
- O quê?
Naquele instante não vi solução melhor para tirar Nicole do Hotel Camilo. Agitá-la, falar muito e explicar pouco, ao mesmo tempo em que ia arrumando sobre a cama as roupas e demais objetos pessoais que encontrava pela frente, me pareceu a maneira de obter melhores resultados em menos tempo. Nicole, embora obviamente relutasse, estranhasse meu incomum comportamento, terminou por julgar que se tratava de algum tipo de surpresa ou coisa parecida, ajudando-me assim na arrumação.
Terminada esta parte, viria nova preocupação: sair do apartamento, com Nicole e as bagagens, pelo corredor vazio. Não havia no entanto muito o que pensar. Após abrir a porta e olhar os dois extremos para onde o corredor se estendia, peguei-a pela mão e levei-a até o elevador. Nicole divertia-se com a maneira cautelosa com que eu andava e procurava fantasmas ao redor. Decerto pressupunha alguma maluquice ou brincadeira de minha parte, e quanto mais tempo permanecesse nessa ilusão melhor seria.
A demora do elevador, no entanto, seria novo motivo para preocupar-me.
- Parou – concluiu Nicole.
- Não. Não é possível.
- Como, não? Não sai do segundo andar.
Nicole tinha razão. Por mais que se chamasse, o elevador não subia. Era um mau sinal que terminou por encerrar a minha paciência, levando-me a agredir com um murro a porta do elevador.
- O que é isso? – Nicole assustou-se.
Teríamos de descer pelas escadas. Ficar mais expostos, mais vulneráveis do que já estávamos. O lobo nos queria em sua garganta, e como bons carneirinhos a ela nos encaminhávamos. Pensava nisto ao empurrar com o corpo a pesada porta que levava do corredor à escada, e ao ouvir seu arrastado ranger ecoando por todos os andares. Foi então que cogitei deixar Nicole ali, no corredor, e seguir sozinho. Seria a opção mais segura, se eu ao menos soubesse quais eram os planos de Casemiro. Alguém que, para matar apenas uma pessoa, leva junto toda a família da vítima, não poderia jamais ser considerada como previsível. Acabei resolvendo por levar Nicole comigo.
Nicole, por sinal, começava a impacientar-se com meu comportamento e com a ausência de explicações. Reclamava, e quando começou a aumentar o tom de voz tive de lhe pedir, rispidamente, que calasse a boca. Ela não calou, mas pelo menos baixou a voz.
- Que brincadeira mais babaca - ia resmungando. Depois de burro velho, dando pra brincar de polícia e ladrão... Quem mais está metido nessa palhaçada, o Marcelo?
Nesse instante ela calou-se, e eu também, ao ouvir o prolongado ruído de uma das portas se abrindo, mais prolongado ainda devido ao eco que atravessou nossos ouvidos e subiu pelas paredes como uma onda de ar quente. Ficamos imóveis sobre os degraus ouvindo a porta abrir-se, aparentemente no andar abaixo daquele em que nos encontrávamos, para em seguida fechar-se com um estrondo.
Esperamos. Impossível saber se as mãos que moveram a porta o fizeram para entrar ou para sair. Eu mal respirava, a fim de que o som do ar nas narinas não me impedisse de escutar qualquer movimento vindo de baixo. Temia o pior, temia os passos do demônio subindo o inferno para nos buscar, e contra ele só dispunha das mochilas que carregava, minhas e de Nicole. Esperava a qualquer instante a figura de Casemiro surgindo na curva da escada, e não conseguia pensar em nenhuma solução além de atirar-me sobre ele e enfrentá-lo, mesmo em desvantagem, mesmo desarmado.
Solução obviamente guiada pelo desespero. Antes que pudesse vê-la tornar-se realidade, porém, já estava puxando Nicole e saindo às pressas dali. Não tencionava saber que conseqüências teria meu ato de bravura, ou de insanidade. Tampouco pretendia me certificar da presença ou não de Casemiro naquele hotel. Só importava a minha própria presença ali dentro, que esperava eliminar o quanto antes.
Pensava nisso enquanto a porta batia às minhas costas. De volta aos corredores, a esperança de encontrarmos alguém seria frustrada uma segunda vez. Tudo estava estranhamente vazio e silencioso, e, exceto por um carrinho de camareira abandonado no corredor, não havia qualquer sinal de funcionários. Uma placa indicava estarmos no segundo andar, o que nos levou a verificar os elevadores. Talvez não estivessem verdadeiramente parados, talvez uma porta deixada aberta, e logo poderíamos descer. O que encontramos, no entanto, serviu para dar-me a certeza de que meu perseguidor se encontrava naquele hotel: colocado estrategicamente no chão, um sapato feminino bloqueava a porta de um dos elevadores, impedindo seu funcionamento. No outro elevador a mesma cena se repetia, mas no lugar do calçado era uma caixa de primeiros socorros que o segurava naquele andar.
A mensagem era clara, e eu não iria esperar o autor para discutí-la. Tratei de entrar no elevador com uma Nicole já sem qualquer vestígio de paciência e apertar o botão do térreo. Embora ainda assustado, não deixei de aproveitar um certo sentimento de alívio por enfim sair dali.
Mas qual não foi a minha surpresa quando, ao invés de descer, o elevador subiu.
- Merda! - gritei, o punho fechado se chocando contra a parede do elevador. Merda, merda!
- Pára com isso! - gritou Nicole.
O antigo elevador foi subindo lenta e dolorosamente, a cada andar aumentando em mim a certeza de que Casemiro lá estaria, no último, à nossa espera. A morte após a porta. Colocando-me à frente de Nicole, posicionei-me nos fundos da pequena cabine e esperei que o elevador chegasse, a grade de metal se abrisse e a porta de madeira revelasse o pior.
No décimo andar o elevador parou. Não havia mais para onde subir.
Ansiosos, ficamos esperando que algo acontecesse. Mas a porta não se abriu, e nem o pior se revelou. Por alguns segundos devo ter ficado imóvel, desorientado, mas logo apertava o botão para que o elevador retornasse ao térreo. Tremia da cabeça aos pés. Nicole percebeu, e sua impaciência enfim deu lugar à desconfiança de que toda aquela situação poderia não ser uma brincadeira. Quis saber o que estava acontecendo. O que eu havia aprontado. Fez cara de choro quando não lhe dei respostas, e só consegui prometer-lhe que contaria tudo, mas que antes precisávamos sair dali, que eu não suportaria um segundo a mais naquele diabo de hotel.
A recepção estava cheia de gente. Como se todos os funcionários e hóspedes ali estivessem reunidos, e o restante do prédio fosse propositalmente abandonado para que o assassino pudesse brincar conosco sem ser interrompido. Verifiquei todos os rostos, não reconheci Casemiro em nenhum deles. Enquanto Nicole pagava a curta estadia, fui procurá-lo na rua, e em algum defeito em minha moto. Atentava para a necessidade de combustível, quando ela se aproximou após sair do Hotel Camilo e atravessar a rua. Já não aparentava impaciência, tampouco medo. Seu rosto estava sério e transpirava cansaço com toda aquela inesperada correria.
- Para onde vamos agora? - falou bem baixo, enquanto prendia o cabelo num rabo de cavalo.
- Sair daqui. Você vai ver quando chegarmos.
- Meu marido vai me ligar de noite. Estranhará quando disserem que já saí do hotel.
- Ligaremos para ele antes disso - falava enquanto ia mexendo na moto.
- Zeca, o que está acontecendo...?
Meus olhos então procuraram os dela. Nicole estava verdadeiramente angustiada, o que me inundou de remorsos por metê-la em toda aquela situação. No mesmo instante os olhos de Natália me vieram à cabeça, e junto com eles a vontade de largar tudo, de sentar ali mesmo no chão e chorar. Mas não era o momento.
Esquecesse, ainda tinha muito o que fazer.
A moto estava em ordem, faltando apenas terminar de encher o tanque. Procurando satisfazer a curiosidade de Nicole, disse-lhe que estava com problemas e lamentava muito tê-la envolvido neles, mas que tudo seria resolvido logo. Acabei sendo surpreendido pela reação dela.
- Antes ficasse calado - reclamou. Se quer me poupar, ao menos invente uma desculpa convincente. Ou me conte logo tudo de uma vez. “Estou com problemas”, isso eu posso ver muito bem, não preciso que você me diga. E pelo visto é coisa séria mesmo, porque grampearam até teu telefone. O que é, Zeca, se meteu com o tráfico, descobriu alguma falcatrua do governador e agora estão querendo te matar? Hem? O que é que você andou fazendo?
- Quem dera fosse algo tão heróico - lamentei, subindo na moto e esperando que ela fizesse o mesmo.
Depois que dei a partida e arranquei, vieram alguns minutos de silêncio. Nicole então diria, a cabeça aninhando-se em minhas costas:
- Todo mundo erra.
Fez isso decerto procurando dar-me algum conforto. Quase conseguiu.
Mas a impressão de que estava sendo seguido ainda era mais forte.
Teria de ir até o Hotel Camilo e tirar Nicole de lá. Perguntava a mim mesmo de que maneira faria isso, enquanto dava partida em minha motocicleta. Ou inventava uma desculpa que fosse muito bem elaborada, ou dizia a verdade. Escolher uma das opções era o que confundia e atormentava.
Mas atormentava-me também a desagradável impressão de estar sendo seguido. O que era pouco provável, visto que Casemiro, o assassino que agora me queria morto e de quem eu estava fugindo, decerto sabia exatamente onde me encontrar. Talvez até já estivesse lá, à minha espera. Mesmo assim a impressão permaneceu, firme como uma rocha, e procurei ir o mais rápido que era possível, não parando em nenhum dos sinais vermelhos que me surgiam à frente. Seguia tenso, temeroso, mas estranhamente decidido. Resolvera que a sucessão de mortes, amontoando-se ao meu redor em menos de um mês, havia se encerrado com a mulher no terraço. A próxima, se houvesse, teria de ser a minha. De ninguém mais.
Parei em frente ao hotel, mas do outro lado da rua. Não sem antes averiguar se a figura magra, comprida, de poucos cabelos e barba por fazer, que para mim se tornaria a encarnação do próprio diabo, estava por perto. Provavelmente estava, mas não o vi. Talvez escondido, apontando-me uma arma. Talvez lá dentro, no hotel. Via-o em todos os rostos enquanto esperava na recepção que me anunciassem, e a cada passo que dava para dentro em direção ao apartamento de Nicole imaginava-o à espreita atrás de uma porta, numa curva do corredor ou pelas escadas. Era improvável que ele tentasse qualquer coisa dentro do hotel, pouco seguro. Mas eu já conhecia a fama de Casemiro, e seus últimos atos indicavam que não era de todo absurda a possibilidade de uma ação em local aberto e movimentado.
Foi então que me dei conta, já na porta do apartamento de Nicole, de que não havia visto uma pessoa sequer circulando pelos corredores, nem ouvi barulhos de qualquer natureza. Onde estavam os funcionários, os hóspedes?
Não pude prosseguir com minha desconfiança, pois naquele instante a porta abriu-se e o sorriso de Nicole proporcionou-me um imenso sentimento de alívio. Puxando-me para o interior do apartamento, a boa amiga a princípio abraçou-me com o entusiasmo das pessoas queridas que há muito não se vêem. Depois estranhou minha presença ali.
- Mas você não disse que tinha de sair?
- Eu tinha. E tenho. Só que preciso que você venha comigo. Está ocupada?
- Ocupada? Não.
- Ótimo. Então vamos arrumar suas coisas que eu vou tirar você deste hotel. Ligue pra recepção e peça o check-out.
- O quê?
Naquele instante não vi solução melhor para tirar Nicole do Hotel Camilo. Agitá-la, falar muito e explicar pouco, ao mesmo tempo em que ia arrumando sobre a cama as roupas e demais objetos pessoais que encontrava pela frente, me pareceu a maneira de obter melhores resultados em menos tempo. Nicole, embora obviamente relutasse, estranhasse meu incomum comportamento, terminou por julgar que se tratava de algum tipo de surpresa ou coisa parecida, ajudando-me assim na arrumação.
Terminada esta parte, viria nova preocupação: sair do apartamento, com Nicole e as bagagens, pelo corredor vazio. Não havia no entanto muito o que pensar. Após abrir a porta e olhar os dois extremos para onde o corredor se estendia, peguei-a pela mão e levei-a até o elevador. Nicole divertia-se com a maneira cautelosa com que eu andava e procurava fantasmas ao redor. Decerto pressupunha alguma maluquice ou brincadeira de minha parte, e quanto mais tempo permanecesse nessa ilusão melhor seria.
A demora do elevador, no entanto, seria novo motivo para preocupar-me.
- Parou – concluiu Nicole.
- Não. Não é possível.
- Como, não? Não sai do segundo andar.
Nicole tinha razão. Por mais que se chamasse, o elevador não subia. Era um mau sinal que terminou por encerrar a minha paciência, levando-me a agredir com um murro a porta do elevador.
- O que é isso? – Nicole assustou-se.
Teríamos de descer pelas escadas. Ficar mais expostos, mais vulneráveis do que já estávamos. O lobo nos queria em sua garganta, e como bons carneirinhos a ela nos encaminhávamos. Pensava nisto ao empurrar com o corpo a pesada porta que levava do corredor à escada, e ao ouvir seu arrastado ranger ecoando por todos os andares. Foi então que cogitei deixar Nicole ali, no corredor, e seguir sozinho. Seria a opção mais segura, se eu ao menos soubesse quais eram os planos de Casemiro. Alguém que, para matar apenas uma pessoa, leva junto toda a família da vítima, não poderia jamais ser considerada como previsível. Acabei resolvendo por levar Nicole comigo.
Nicole, por sinal, começava a impacientar-se com meu comportamento e com a ausência de explicações. Reclamava, e quando começou a aumentar o tom de voz tive de lhe pedir, rispidamente, que calasse a boca. Ela não calou, mas pelo menos baixou a voz.
- Que brincadeira mais babaca - ia resmungando. Depois de burro velho, dando pra brincar de polícia e ladrão... Quem mais está metido nessa palhaçada, o Marcelo?
Nesse instante ela calou-se, e eu também, ao ouvir o prolongado ruído de uma das portas se abrindo, mais prolongado ainda devido ao eco que atravessou nossos ouvidos e subiu pelas paredes como uma onda de ar quente. Ficamos imóveis sobre os degraus ouvindo a porta abrir-se, aparentemente no andar abaixo daquele em que nos encontrávamos, para em seguida fechar-se com um estrondo.
Esperamos. Impossível saber se as mãos que moveram a porta o fizeram para entrar ou para sair. Eu mal respirava, a fim de que o som do ar nas narinas não me impedisse de escutar qualquer movimento vindo de baixo. Temia o pior, temia os passos do demônio subindo o inferno para nos buscar, e contra ele só dispunha das mochilas que carregava, minhas e de Nicole. Esperava a qualquer instante a figura de Casemiro surgindo na curva da escada, e não conseguia pensar em nenhuma solução além de atirar-me sobre ele e enfrentá-lo, mesmo em desvantagem, mesmo desarmado.
Solução obviamente guiada pelo desespero. Antes que pudesse vê-la tornar-se realidade, porém, já estava puxando Nicole e saindo às pressas dali. Não tencionava saber que conseqüências teria meu ato de bravura, ou de insanidade. Tampouco pretendia me certificar da presença ou não de Casemiro naquele hotel. Só importava a minha própria presença ali dentro, que esperava eliminar o quanto antes.
Pensava nisso enquanto a porta batia às minhas costas. De volta aos corredores, a esperança de encontrarmos alguém seria frustrada uma segunda vez. Tudo estava estranhamente vazio e silencioso, e, exceto por um carrinho de camareira abandonado no corredor, não havia qualquer sinal de funcionários. Uma placa indicava estarmos no segundo andar, o que nos levou a verificar os elevadores. Talvez não estivessem verdadeiramente parados, talvez uma porta deixada aberta, e logo poderíamos descer. O que encontramos, no entanto, serviu para dar-me a certeza de que meu perseguidor se encontrava naquele hotel: colocado estrategicamente no chão, um sapato feminino bloqueava a porta de um dos elevadores, impedindo seu funcionamento. No outro elevador a mesma cena se repetia, mas no lugar do calçado era uma caixa de primeiros socorros que o segurava naquele andar.
A mensagem era clara, e eu não iria esperar o autor para discutí-la. Tratei de entrar no elevador com uma Nicole já sem qualquer vestígio de paciência e apertar o botão do térreo. Embora ainda assustado, não deixei de aproveitar um certo sentimento de alívio por enfim sair dali.
Mas qual não foi a minha surpresa quando, ao invés de descer, o elevador subiu.
- Merda! - gritei, o punho fechado se chocando contra a parede do elevador. Merda, merda!
- Pára com isso! - gritou Nicole.
O antigo elevador foi subindo lenta e dolorosamente, a cada andar aumentando em mim a certeza de que Casemiro lá estaria, no último, à nossa espera. A morte após a porta. Colocando-me à frente de Nicole, posicionei-me nos fundos da pequena cabine e esperei que o elevador chegasse, a grade de metal se abrisse e a porta de madeira revelasse o pior.
No décimo andar o elevador parou. Não havia mais para onde subir.
Ansiosos, ficamos esperando que algo acontecesse. Mas a porta não se abriu, e nem o pior se revelou. Por alguns segundos devo ter ficado imóvel, desorientado, mas logo apertava o botão para que o elevador retornasse ao térreo. Tremia da cabeça aos pés. Nicole percebeu, e sua impaciência enfim deu lugar à desconfiança de que toda aquela situação poderia não ser uma brincadeira. Quis saber o que estava acontecendo. O que eu havia aprontado. Fez cara de choro quando não lhe dei respostas, e só consegui prometer-lhe que contaria tudo, mas que antes precisávamos sair dali, que eu não suportaria um segundo a mais naquele diabo de hotel.
A recepção estava cheia de gente. Como se todos os funcionários e hóspedes ali estivessem reunidos, e o restante do prédio fosse propositalmente abandonado para que o assassino pudesse brincar conosco sem ser interrompido. Verifiquei todos os rostos, não reconheci Casemiro em nenhum deles. Enquanto Nicole pagava a curta estadia, fui procurá-lo na rua, e em algum defeito em minha moto. Atentava para a necessidade de combustível, quando ela se aproximou após sair do Hotel Camilo e atravessar a rua. Já não aparentava impaciência, tampouco medo. Seu rosto estava sério e transpirava cansaço com toda aquela inesperada correria.
- Para onde vamos agora? - falou bem baixo, enquanto prendia o cabelo num rabo de cavalo.
- Sair daqui. Você vai ver quando chegarmos.
- Meu marido vai me ligar de noite. Estranhará quando disserem que já saí do hotel.
- Ligaremos para ele antes disso - falava enquanto ia mexendo na moto.
- Zeca, o que está acontecendo...?
Meus olhos então procuraram os dela. Nicole estava verdadeiramente angustiada, o que me inundou de remorsos por metê-la em toda aquela situação. No mesmo instante os olhos de Natália me vieram à cabeça, e junto com eles a vontade de largar tudo, de sentar ali mesmo no chão e chorar. Mas não era o momento.
Esquecesse, ainda tinha muito o que fazer.
A moto estava em ordem, faltando apenas terminar de encher o tanque. Procurando satisfazer a curiosidade de Nicole, disse-lhe que estava com problemas e lamentava muito tê-la envolvido neles, mas que tudo seria resolvido logo. Acabei sendo surpreendido pela reação dela.
- Antes ficasse calado - reclamou. Se quer me poupar, ao menos invente uma desculpa convincente. Ou me conte logo tudo de uma vez. “Estou com problemas”, isso eu posso ver muito bem, não preciso que você me diga. E pelo visto é coisa séria mesmo, porque grampearam até teu telefone. O que é, Zeca, se meteu com o tráfico, descobriu alguma falcatrua do governador e agora estão querendo te matar? Hem? O que é que você andou fazendo?
- Quem dera fosse algo tão heróico - lamentei, subindo na moto e esperando que ela fizesse o mesmo.
Depois que dei a partida e arranquei, vieram alguns minutos de silêncio. Nicole então diria, a cabeça aninhando-se em minhas costas:
- Todo mundo erra.
Fez isso decerto procurando dar-me algum conforto. Quase conseguiu.
Mas a impressão de que estava sendo seguido ainda era mais forte.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Bala de tamarindo
Quando recebi uma mensagem infectada, abri, de tão sozinho que estava. Antes um vírus do que nada.
Deixei que descobrissem minhas senhas, meus segredos, minha intimidade. Sentia que, enquanto navegava, alguém vigiava meus passos. E assim me sentia menos sozinho.
Agora acabei de colocar na boca a bala de tamarindo que comprei da velhinha que fica lá embaixo.
A bala me fere a língua. Fere todo o céu da boca, até sangrar. Quando termino uma, coloco outra na boca ferida. Depois outra. E outra.
A minha bala é a única que tem esse gosto de sangue.
Deixei que descobrissem minhas senhas, meus segredos, minha intimidade. Sentia que, enquanto navegava, alguém vigiava meus passos. E assim me sentia menos sozinho.
Agora acabei de colocar na boca a bala de tamarindo que comprei da velhinha que fica lá embaixo.
A bala me fere a língua. Fere todo o céu da boca, até sangrar. Quando termino uma, coloco outra na boca ferida. Depois outra. E outra.
A minha bala é a única que tem esse gosto de sangue.
domingo, 22 de agosto de 2010
Sessão espírita (2)
"Mas amor, me diga. Como é o além?"
"Eu fico o dia todo fazendo palavras cruzadas e tomando iogurte."
"Ai, amor. Tenho tanta coisa pra te falar. Tanta coisa. Nem sei por onde começo."
"..."
"E você? Me diz alguma coisa. Me fala de você."
"Você não mudou nada."
"Jura, amor?"
"Juro. Não consigo acreditar que você pagou 250 reais por essa consulta."
"Eu fico o dia todo fazendo palavras cruzadas e tomando iogurte."
"Ai, amor. Tenho tanta coisa pra te falar. Tanta coisa. Nem sei por onde começo."
"..."
"E você? Me diz alguma coisa. Me fala de você."
"Você não mudou nada."
"Jura, amor?"
"Juro. Não consigo acreditar que você pagou 250 reais por essa consulta."
sábado, 21 de agosto de 2010
Sessão espírita (1)
"A senhora é casada?"
"Sou viúva."
"E quer saber o quê?"
"Se o falecido está bem."
"Ele está aí do seu lado. A senhora pode perguntar a ele."
"Amor, você está aí?"
"Oi."
"Você está bem? Estou sentindo a sua falta. Como você está?"
"Com frio. Faz um frio danado aqui. Você bem que podia ter me enterrado com um cachecol."
"Você viu a minha mãe? Falou com ela?"
"Claro que não. Nem procurei."
"Sou viúva."
"E quer saber o quê?"
"Se o falecido está bem."
"Ele está aí do seu lado. A senhora pode perguntar a ele."
"Amor, você está aí?"
"Oi."
"Você está bem? Estou sentindo a sua falta. Como você está?"
"Com frio. Faz um frio danado aqui. Você bem que podia ter me enterrado com um cachecol."
"Você viu a minha mãe? Falou com ela?"
"Claro que não. Nem procurei."
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
Identidade
Ao olhar no espelho no banheiro, não se reconheceu. Não reconheceu, tampouco, o banheiro do reflexo.
O que refletiam os espelhos, afinal? A realidade do mundo ou a versão de cada habitante? Quantos mundos diferentes e desconhecidos existiriam, se cada um passasse a enxergar apenas a sua própria verdade? De onde saíra aquele lugar no reflexo, já que não fazia parte de sua memória?
Não teve tempo para perguntar mais. Atrás dele, no reflexo, havia um vulto que ele também não conhecia.
O que refletiam os espelhos, afinal? A realidade do mundo ou a versão de cada habitante? Quantos mundos diferentes e desconhecidos existiriam, se cada um passasse a enxergar apenas a sua própria verdade? De onde saíra aquele lugar no reflexo, já que não fazia parte de sua memória?
Não teve tempo para perguntar mais. Atrás dele, no reflexo, havia um vulto que ele também não conhecia.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Vazio
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quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Posição de feto retorcido
Como não sabia o que viera antes, se a dor de cabeça ou o medo, decidiu que chegaram juntos. O frio veio depois. E como não tinha coragem para sair da posição de feto retorcido que o medo lhe estava impondo, não conseguiu fechar a janela, por onde entravam ventos, lixo, chuva e mais medo. O dia estava indo embora e levava com ele a luz. As luzes. Ver então o quarto escurecer por completo, para ele foi como um fechar de olhos sem retorno.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
Chapéu
"Moço!", o garotinho vinha correndo pela rua.
Parei no meio da Avenida Rio Branco. O moço era eu.
"Que foi?"
"O senhor deixou cair o seu chapéu."
"Não é meu."
"É seu, sim. O senhor deixou cair. Tome."
"Eu não uso chapéu."
O garoto olhou então para mim e eu nunca esqueci o que vi naquele olhar.
Vi ódio. Muito ódio, antes de ele se virar e ir embora segurando o chapéu.
Já tem quinze anos que isso aconteceu.
Parei no meio da Avenida Rio Branco. O moço era eu.
"Que foi?"
"O senhor deixou cair o seu chapéu."
"Não é meu."
"É seu, sim. O senhor deixou cair. Tome."
"Eu não uso chapéu."
O garoto olhou então para mim e eu nunca esqueci o que vi naquele olhar.
Vi ódio. Muito ódio, antes de ele se virar e ir embora segurando o chapéu.
Já tem quinze anos que isso aconteceu.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Insônia
Estava dentro da madrugada. Circulava pesadamene no meio de seus túneis quando o sono, sem mais nem menos, acabou. Quis continuar, mas não tinha para onde ir. E perdido levantei-me da cama.
Andei no escuro até a janela e fiquei olhando. Pensava em quantas pessoas, no mundo, naquele instante, não teriam acabado de perder o sono como eu e agora olhavam o nada fazendo perguntas que jamais seriam respondidas.
Andei no escuro até a janela e fiquei olhando. Pensava em quantas pessoas, no mundo, naquele instante, não teriam acabado de perder o sono como eu e agora olhavam o nada fazendo perguntas que jamais seriam respondidas.
domingo, 15 de agosto de 2010
A capa que não foi

Quando recebi da editora o contrato de publicação do romance, veio também um pequeno questionário. Uma das perguntas era como eu imaginava a capa e, no lugar de responder por escrito, enviei essa imagem, feita no Photoshop.
Só que não foi aproveitada. Eu achei essa melhor.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Recebi um trote esquisito. Estava no trabalho quando ligaram para o meu celular. Voz de homem no meio de muito chiado.
"É o senhor Maurício Limeira?"
"Sou eu."
"O senhor não acha estranho uma criança ter sido raptada numa maternidade?"
"Quem está falando?"
"Não acha estranho?"
"Não. Toda hora uma criança é raptada em alguma maternidade."
"E uma chuva de meteoros? Não acha estranho?"
"Também não. É um fenômeno da natureza."
"Mas não acha estranho os dois eventos acontecerem no mesmo dia?"
"Não, não acho. Preciso desligar, estou ocupado."
"Perfeitamente, Senhor Maurício. Muito obrigado pela atenção. Tenha uma boa sexta-feira 13."
E desligou.
"É o senhor Maurício Limeira?"
"Sou eu."
"O senhor não acha estranho uma criança ter sido raptada numa maternidade?"
"Quem está falando?"
"Não acha estranho?"
"Não. Toda hora uma criança é raptada em alguma maternidade."
"E uma chuva de meteoros? Não acha estranho?"
"Também não. É um fenômeno da natureza."
"Mas não acha estranho os dois eventos acontecerem no mesmo dia?"
"Não, não acho. Preciso desligar, estou ocupado."
"Perfeitamente, Senhor Maurício. Muito obrigado pela atenção. Tenha uma boa sexta-feira 13."
E desligou.
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