quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cheia



A água estava dentro da casa.

Todos saíram. Mas esqueceram uma das filhas lá dentro.

O quarto cheio de água escura e lama, e ela descalça.

Ao pisar, não sentiu os vermes que entravam pelo pé. Tomavam rapidamente a corrente sanguínea, enquanto ela tentava chegar à saída da casa.

Dois dias depois, ela caía doente.


Os vermes, alimentados do rancor por ter sido esquecida, devoraram o coração e se esconderam atrás dos olhos da menina.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Vizinho






Diziam que havia uma rachadura. Não na parede.

No peito.

E saía fumaça. Cheirava a cadáver.

Ninguém chegava perto dele. Ele nunca sorria.

As histórias mais terríveis contavam a seu respeito.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Maus hábitos




“Você deveria parar com isso.”

“Isso o quê.”

“Isso que você faz toda noite.”

“Não faço nada.”

“Faz. Eu vi.”

“Você vê demais.”

“Não sei que graça tem.”

“Faça, que você vai saber.”

“Já fiz.”

“E não gostou?”

“Não.”

“Por quê?”

“Doeu muito.”

“Mas é pra doer mesmo.”

“Eu não quero.”

“Tenta mais uma vez.”

“Não. Sai sangue.”

“Claro que sai. É pra sair.”

“Não quero.”

“Deixa eu fazer em você.”

“Não!”

“Deixa.”

*

“Para. Tá doendo.”

“Mais um pouco.”

“Para. Não quero.”

“Deixa.”

“Não. Não. Não.”




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Infância





“Você nasceu com duas cabeças”, disse o irmão mais velho ao caçula. “Uma inteligente e outra burra. Tiveram que cortar uma delas. Só que cortaram a cabeça errada. Por isso que você é assim.”

Contrastando e combinando com a crueldade do irmão mais velho, que o levava a fazer afirmações como esta, havia a ingenuidade do mais novo, que o levava a acreditar.

Foi então o irmão mais novo consultar a mãe.

“Nasci com duas cabeças? Cortaram uma delas? Ficou apenas a burra, mamãe?”

A mãe puxou carinhosa o pequeno para junto de si.

“Claro que não. Você nasceu normal e lindo e nós o amamos muito. É um menino inteligente e querido. Eu e seu pai somos muito felizes por ter você conosco. Você traz luz às nossas vidas e nos tornou pessoas melhores.”

Com lágrimas nos olhos o menino abraçou a mãe e o pai que estava por perto. Depois foi correndo esfregar na cara do irmão as palavras que guardaria na memória para o resto da vida.

“Será que eu fui convincente?”, a mãe perguntou ao pai. “Será que ele acreditou?”

“Deve ter acreditado”, disse o pai. “O menino é muito burro.”

“Ainda acho que não deveríamos ter cortado uma das cabeças. Ele poderia muito bem ficar como o avô.”

“Ah, não. De monstro na família, basta o teu pai.”

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Aniversário



“Por que tanta escuridão?”

“A noite é assim.”

“Não na noite. Nos seus olhos.”

Ela perguntava e ele mais e mais se fechava.

Um dia, para animá-lo, decidiu fazer uma festa surpresa no aniversário dele.

Convidou muita gente para esperá-lo, as luzes apagadas, quando chegasse em casa.

Qual não foi a surpresa, no entanto, quando ele entrou sorrateiro e, diante da luz acesa e dos amigos e familiares, não teve onde esconder a criança morta que trazia nos braços, com o bracinho ensanguentado ainda entre os dentes.




terça-feira, 5 de agosto de 2014

Rotina



Era uma tosse que não cessava, e na certeza da morte ele foi vivendo.

“Não para de tossir, doutor”, a mulher lamentou.

O médico passou um remédio que não serviu.

Ele acabou morrendo como havia previsto.

Ela, na tristeza da saudade, morreu logo depois.

No dia seguinte, era como se jamais houvessem existido.