sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Escuridão





“Você está livre. Não a quero mais.”

Ela olhou, do canto escuro onde estivera há meses aprisionada, a porta aberta confirmando as palavras dele.

Então sentiu, na parte mais profunda do peito, o quanto havia sido manipulada e transformada ali dentro. O quanto aqueles momentos foram os mais horríveis em toda a sua vida.

Agora, diante da porta aberta e da promessa de liberdade, era o desconhecido lá fora que lhe causava horror.

E por isso ela preferiu ficar.

 

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O ciclo do parasita






Dizem que, quando caímos, algo das profundezas nos acompanha, no momento em que nos reerguemos.

E isto que trazemos conosco, que não percebemos na hora, vai aos poucos se alimentando de nossas paixões, nossas memórias. De tudo aquilo que somos, ele se torna parasita.

Então este algo sombrio e silencioso começa a crescer e a querer mais.

Mais do que podemos dar.

De repente, nos vimos incomodados por um sentimento distante e minúsculo, quase imperceptível.

Porém, em franco crescimento.

Quando atinge seu auge, o incômodo deixa de ser minúsculo. Torna-se fome. E fome exige que a satisfaçam.

E enfim, quando encontramos aquilo que sabemos ser a única coisa capaz de saciar esta nova fome, também descobrimos que, daqui para frente, o que nos espera é um caminho sem volta.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Cheia



A água estava dentro da casa.

Todos saíram. Mas esqueceram uma das filhas lá dentro.

O quarto cheio de água escura e lama, e ela descalça.

Ao pisar, não sentiu os vermes que entravam pelo pé. Tomavam rapidamente a corrente sanguínea, enquanto ela tentava chegar à saída da casa.

Dois dias depois, ela caía doente.


Os vermes, alimentados do rancor por ter sido esquecida, devoraram o coração e se esconderam atrás dos olhos da menina.



terça-feira, 12 de agosto de 2014

Vizinho






Diziam que havia uma rachadura. Não na parede.

No peito.

E saía fumaça. Cheirava a cadáver.

Ninguém chegava perto dele. Ele nunca sorria.

As histórias mais terríveis contavam a seu respeito.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Maus hábitos




“Você deveria parar com isso.”

“Isso o quê.”

“Isso que você faz toda noite.”

“Não faço nada.”

“Faz. Eu vi.”

“Você vê demais.”

“Não sei que graça tem.”

“Faça, que você vai saber.”

“Já fiz.”

“E não gostou?”

“Não.”

“Por quê?”

“Doeu muito.”

“Mas é pra doer mesmo.”

“Eu não quero.”

“Tenta mais uma vez.”

“Não. Sai sangue.”

“Claro que sai. É pra sair.”

“Não quero.”

“Deixa eu fazer em você.”

“Não!”

“Deixa.”

*

“Para. Tá doendo.”

“Mais um pouco.”

“Para. Não quero.”

“Deixa.”

“Não. Não. Não.”




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Infância





“Você nasceu com duas cabeças”, disse o irmão mais velho ao caçula. “Uma inteligente e outra burra. Tiveram que cortar uma delas. Só que cortaram a cabeça errada. Por isso que você é assim.”

Contrastando e combinando com a crueldade do irmão mais velho, que o levava a fazer afirmações como esta, havia a ingenuidade do mais novo, que o levava a acreditar.

Foi então o irmão mais novo consultar a mãe.

“Nasci com duas cabeças? Cortaram uma delas? Ficou apenas a burra, mamãe?”

A mãe puxou carinhosa o pequeno para junto de si.

“Claro que não. Você nasceu normal e lindo e nós o amamos muito. É um menino inteligente e querido. Eu e seu pai somos muito felizes por ter você conosco. Você traz luz às nossas vidas e nos tornou pessoas melhores.”

Com lágrimas nos olhos o menino abraçou a mãe e o pai que estava por perto. Depois foi correndo esfregar na cara do irmão as palavras que guardaria na memória para o resto da vida.

“Será que eu fui convincente?”, a mãe perguntou ao pai. “Será que ele acreditou?”

“Deve ter acreditado”, disse o pai. “O menino é muito burro.”

“Ainda acho que não deveríamos ter cortado uma das cabeças. Ele poderia muito bem ficar como o avô.”

“Ah, não. De monstro na família, basta o teu pai.”