Durante
a chuva, foi para a janela e testemunhou a queda de um meteoro no mar.
Blog do romance "O Adversário", de Maurício Limeira
+ informações de outros textos do autor.
segunda-feira, 18 de agosto de 2014
Paisagem
sexta-feira, 15 de agosto de 2014
Escuridão
“Você
está livre. Não a quero mais.”
Ela
olhou, do canto escuro onde estivera há meses aprisionada, a porta aberta
confirmando as palavras dele.
Então
sentiu, na parte mais profunda do peito, o quanto havia sido manipulada e
transformada ali dentro. O quanto aqueles momentos foram os mais horríveis em
toda a sua vida.
Agora,
diante da porta aberta e da promessa de liberdade, era o desconhecido lá fora
que lhe causava horror.
E
por isso ela preferiu ficar.
quinta-feira, 14 de agosto de 2014
O ciclo do parasita
Dizem
que, quando caímos, algo das profundezas nos acompanha, no momento em que nos
reerguemos.
E
isto que trazemos conosco, que não percebemos na hora, vai aos poucos se
alimentando de nossas paixões, nossas memórias. De tudo aquilo que somos, ele
se torna parasita.
Então
este algo sombrio e silencioso começa a crescer e a querer mais.
Mais
do que podemos dar.
De
repente, nos vimos incomodados por um sentimento distante e minúsculo, quase
imperceptível.
Porém,
em franco crescimento.
Quando
atinge seu auge, o incômodo deixa de ser minúsculo. Torna-se fome. E fome exige
que a satisfaçam.
E
enfim, quando encontramos aquilo que sabemos ser a única coisa capaz de saciar
esta nova fome, também descobrimos que, daqui para frente, o que nos espera é
um caminho sem volta.
quarta-feira, 13 de agosto de 2014
Cheia
A
água estava dentro da casa.
Todos
saíram. Mas esqueceram uma das filhas lá dentro.
O
quarto cheio de água escura e lama, e ela descalça.
Ao
pisar, não sentiu os vermes que entravam pelo pé. Tomavam rapidamente a
corrente sanguínea, enquanto ela tentava chegar à saída da casa.
Dois
dias depois, ela caía doente.
Os
vermes, alimentados do rancor por ter sido esquecida, devoraram o coração e se
esconderam atrás dos olhos da menina.
terça-feira, 12 de agosto de 2014
Vizinho
Diziam
que havia uma rachadura. Não na parede.
No
peito.
E
saía fumaça. Cheirava a cadáver.
Ninguém
chegava perto dele. Ele nunca sorria.
segunda-feira, 11 de agosto de 2014
Maus hábitos
“Você
deveria parar com isso.”
“Isso
o quê.”
“Isso
que você faz toda noite.”
“Não
faço nada.”
“Faz.
Eu vi.”
“Você
vê demais.”
“Não
sei que graça tem.”
“Faça,
que você vai saber.”
“Já
fiz.”
“E
não gostou?”
“Não.”
“Por
quê?”
“Doeu
muito.”
“Mas
é pra doer mesmo.”
“Eu
não quero.”
“Tenta
mais uma vez.”
“Não.
Sai sangue.”
“Claro
que sai. É pra sair.”
“Não
quero.”
“Deixa
eu fazer em você.”
“Não!”
“Deixa.”
*
“Para.
Tá doendo.”
“Mais
um pouco.”
“Para.
Não quero.”
“Deixa.”
“Não. Não. Não.”
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Infância
“Você
nasceu com duas cabeças”, disse o irmão mais velho ao caçula. “Uma inteligente
e outra burra. Tiveram que cortar uma delas. Só que cortaram a cabeça errada.
Por isso que você é assim.”
Contrastando
e combinando com a crueldade do irmão mais velho, que o levava a fazer
afirmações como esta, havia a ingenuidade do mais novo, que o levava a acreditar.
Foi
então o irmão mais novo consultar a mãe.
“Nasci
com duas cabeças? Cortaram uma delas? Ficou apenas a burra, mamãe?”
A
mãe puxou carinhosa o pequeno para junto de si.
“Claro
que não. Você nasceu normal e lindo e nós o amamos muito. É um menino inteligente
e querido. Eu e seu pai somos muito felizes por ter você conosco. Você traz luz
às nossas vidas e nos tornou pessoas melhores.”
Com
lágrimas nos olhos o menino abraçou a mãe e o pai que estava por perto. Depois
foi correndo esfregar na cara do irmão as palavras que guardaria na memória
para o resto da vida.
“Será
que eu fui convincente?”, a mãe perguntou ao pai. “Será que ele acreditou?”
“Deve
ter acreditado”, disse o pai. “O menino é muito burro.”
“Ainda
acho que não deveríamos ter cortado uma das cabeças. Ele poderia muito bem
ficar como o avô.”
“Ah,
não. De monstro na família, basta o teu pai.”
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