quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Entrega




Depois de tantos anos, ela desistiu de lutar com a solidão e se vestiu de branco. Então trancou a porta. 

À meia-noite, o pentagrama no chão do quarto recebia gotas de seu sangue. 

Nas ruas, uma sombra profana, desagradável e mal-intencionada sentiu o perfume de sua virgindade. 

Os anjos tentaram salvá-la, apressando o nascer do sol. 

Mas a sombra faminta que atravessou quadras, sobrevoou terraços e escalou andares era veloz como a tempestade, e logo encontrou aberta a janela desejada. 

E viu, estendida de bruços sobre o pentagrama, a virgem de branco a esperar. 

As lágrimas que ela verteu naquela noite se misturaram com as lágrimas dos anjos que falharam em zelar por sua proteção.

 

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

O carro



Ao sair de carro para o trabalho, nas manhãs de segunda a sexta, eu parava no sinal e lá estava ela. A mulher baixinha, de cabelos muito pretos escorridos na altura dos ombros, vivia naquele ponto de ônibus.


Estava sempre ali. Não teria mais de cinquenta anos, um aspecto frágil e simplório ao se posicionar e vestir, uma humildade gritante no olhar.


Ela cantava. Alguma coisa glorificando o Senhor saía de sua pequena garganta de forma até afinada, porém frágil como ela. Nas letras, preces, agradecimentos e promessas em melodias tristes e arrastadas. A mulher era uma devota.


Como nunca a houvesse visto entrar em qualquer dos ônibus que paravam naquele ponto, um dia a curiosidade me fez sair do carro e perguntar, ao porteiro do edifício em frente, sobre a curiosa figura. Quem era, para onde ia, que ônibus pegava. Por que não saía dali.


“Ela não pega ônibus nenhum”, foi a resposta do porteiro. “Aquela mulher que o senhor está vendo já morreu. Ela foi atropelada ali mesmo, nesse ponto de ônibus, por um motorista embriagado. O senhor não reparou naquelas outras pessoas perto dela, não é? É porque só ela que canta. Aqueles dois senhores, aquele garoto e aquela senhora também foram atropelados. Estão todos mortos.”


Como que confirmando a assombrosa revelação do porteiro, a mulher parou de cantar e as cinco pessoas se voltaram na minha direção.


“Mas como é que nós estamos vendo aquelas pessoas?”, eu perguntei, ainda incrédulo. “Se estamos vivos, não deveríamos estar vendo essa gente, não é?”


“Eu não estou vivo”, o porteiro me interrompeu secamente. “Há seis anos fui atingido por uma bala perdida aqui mesmo, na portaria. Até pouco tempo, ainda havia meu sangue neste chão.”


“Isto não faz sentido”, retruquei. “Até onde sei, eu estou bem vivo. Não deveria estar tendo esta conversa com o senhor.”


“Esse amassado no carro, o senhor conseguiu como?”


“Que amassado? Não tem amassado ne...”


Tinha, sim. Um amassado horrível havia desfigurado toda a dianteira do meu carro. Com direito a farol quebrado e manchas de sangue.


“Até amanhã”, o porteiro então falou, enquanto eu me limitava a entrar no carro e dar a partida rumo a um lugar sem sol.





sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O ADVERSÁRIO no Portal dos Livreiros

Coloquei, como publicação independente, O ADVERSÁRIO no Portal dos Livreiros. Para o consumidor, há a vantagem do menor preço no exemplar e o contato direto com o autor.

O link: http://www.portaldoslivreiros.com.br/livro.asp?codigo=51




quinta-feira, 7 de maio de 2015

Danielle Sampol

A caríssima amiga e também escritora Danielle Sampol acabou de adquirir O ADVERSÁRIO e enviou estas fotos. Boa leitura, Danielle.



sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

domingo, 12 de outubro de 2014

Panelinhas

Texto copiado do Facebook de Marcelo Mirisola.

Se Raquel Cozer não tivesse alertado ontem em sua coluna na FSP, talvez o fato de uma jurada ser editora de dois finalistas do Prêmio São Paulo passasse despercebido. Essa mesma jurada é a responsável pela seleção de autores que irão representar o Brasil na feira de Paris. 

Para ganhar prêmios literários no Brasil, e para desfrutar de viagens internacionais e de toda mordomia e dos dividendos provenientes do business em questão, não basta ser escritor.

Tô batendo nessa tecla há mais de dez anos, desde quando Manuel da Costa Pinto me disse que um tal "lobbie" gaúcho foi mais forte do que ele na final do Prêmio Portugal Telecom de 2004, ocasião em que meu "Bangalô" dançou. Quebrei o pau com Manuelzinho, que foi curador de Flip, depois de Frankfurt, e é editor do Guia da Folha (que me sacaneou recentemente) e foi jurado de infinitos prêmios literários ao longo dos últimos dez anos. Depois disso veio o Amores Expressos , e eu me envolvi em mais uma confusão por denunciar o "projeto" que usava dinheiro público de renúncia fiscal para levar a playboizada metida a escritora pra passear ao redor mundo. Fica difícil sobreviver como escritor se voce não ganha prêmios, e não é bem relacionado. Aos poucos seu nome vai sendo apagado e esquecido. Não te chamam pra mais nada. Voce sai da pauta, só "ganha" resenha se for premiado, se desfilar nos festivais da moda, e se for amigo dos amigos etc.

E são sempre os mesmos amigos. Num ano são jurados, no outro são eleitos. Basta cruzar os nomes dos últimos ganhadores de Jabutis, Telecons, Petrobrás, Paccs, etc: não é só prestigio, rola dinheiro público: são bolsas, editais, prêmios, viagens, etctctc. Eu não sou jornalista, mas se existe alguém sério na área, taí a pauta de bandeja, investiguem: cruzem os dados, façam uma auditoria.

No caso da jurada do Prêmio São Paulo, ela foi editora de um escolhido, portanto uma amiga. Descobriram, teve de pegar o chapéu e se retirar. E quando os jurados são declaradamente seus inimigos? Qual a credibilidade do Prêmio Telecom desse ano, por exemplo? Dos seis jurados, dois são meus inimigos declarados ( Manuelzinho é um..) e um foi ridicularizado no livro em julgamento. Claro que o Cristo Empalado ficou de fora.

Como é que dá pra levar a sério essa engrenagem viciada que excluiu meus dezesseis livros de suas premiações? Hosana na Sarjeta está indo pro ralo do esquecimento da mesma forma... E tem muita gente boa que foi esquecida porque não é dona de prêmios e medalhas.. Só pra dar um exemplo, quem é que conhece Marcia Denser? Duvido que a autora de "Diana Caçadora" , a maior contista do Brasil, será convidada para a Feira de Paris. Mas o editado da ex-jurada do Prêmio São Paulo estará lá, querem apostar?

sábado, 4 de outubro de 2014

Divulgando



A proposta foi a seguinte: ficar preso num pequeno apartamento, sem contato com o mundo exterior, servindo de cobaia para testes com drogas experimentais, monitorado por câmeras, durante 135 dias.

Eu só precisaria registrar todo o processo num blog.

É claro que eu topei.

O blog já está no ar, e você pode acompanhar diariamente o processo, que já está em andamento, em http://135-dias.blogspot.com.br

Deseje-me sorte.

PS.: É recomendável começar a leitura a partir do Dia 1.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Devoção





A noite a exigia, e ela obediente deslizava para fora de casa.

Não importava a chuva, não importava a doença. Só a obediência era, mais do que importante, essencial.

Ela sempre obedecia.

Os pais assistiam a filha se perdendo, e choravam de impotência.

De manhã a filha retornava e, cada vez mais magra, cada vez mais pálida, prostrava-se na cama exausta e pedia perdão aos pais.

“É mais forte do que eu”, justificava-se.

E era.


terça-feira, 2 de setembro de 2014

Em definitivo




O sol se punha, ele saía.

Ela nunca perguntava para onde ele ia, por que ia, se voltava.

Um dia, ele retornou trazendo uma criança suja nos braços.

“É nossa?”, ela abraçou a criança mesmo suja.

“É sua”, ele virou as costas e nunca mais voltou para casa.



segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Longevidade





Casados há trinta e dois anos e invejados pela harmonia e pelo romantismo que ainda perdurava.

Ele jamais deixara de lhe beijar as mãos, nem de lhe trazer flores.

Um dia, sem qualquer motivo, ele se levantou e foi até a cozinha. Retornou com uma faca.

Ela olhou e compreendeu. Por isso, quando a lâmina desceu na direção de seu peito, ela não reagiu.

Limitou-se a chorar enquanto era esfaqueada.



sábado, 30 de agosto de 2014

Obrigado...


... a você, de Cubatão, que todos os dias vem aqui nos fazer uma visita.


sexta-feira, 29 de agosto de 2014

O importante é estar atualizado

Fonte: Yahoo
https://br.noticias.yahoo.com/blogs/vi-na-internet/padre-exorcista-polon%C3%AAs-diz-receber-sms-dem%C3%B4nio-003355233.html


O padre Marian Rajchel, da cidade polonesa de Jaroslaw, está tendo problemas inusitados com a tecnologia: o religioso está recebendo mensagens de texto malcriadas de ninguém menos que o demônio. Tudo começou quando o padre realizou um exorcismo em uma adolescente e o procedimento não foi bem sucedido. Desde então, o exorcista recebe SMS no celular da garota enviados por Satanás, segundo ele.
Em entrevista ao jornal inglês Daily Mail, Rajchel afirma: "O autor dessas mensagens é um espírito mau". Muitas vezes, os donos de telefones celulares nem têm noção de estarem sendo usados desse modo. No entanto, isso é muito claro nesse caso, disse o padre ao site do jornal inglês. De acordo com ele, o demônio não faz cerimônia em usar as novas tecnologias para assediar as pessoas.
Veja o conteúdo de uma das mensagens recebidas pelo padre polonês: "Ela não vai sair deste inferno. Ela é minha e qualquer um que rezar por ela vai morrer". Rajchel respondeu que rezaria pela garota e obteve outra resposta malcriada: "Cale a boca, pregador. Você não pode salvar a si mesmo. Idiota. Seu patético e velho pregador". E aí, você já recebeu algum SMS maligno? Diga nos comentários!