sexta-feira, 19 de abril de 2013

O Jardineiro



Uma casal muito rico. Um sogro mais rico ainda. Um amigo traidor. Um mordomo fiel. Uma amiga traída... e vingativa. Intriga, corrupção, luxúria, sexo, perversidade, má fé, pouca vergonha, gente sórdida, dinheiro, um jardim e uma piscina. No meio disso tudo, um jardineiro inocente que não faz a menor ideia de onde foi se meter.

O JARDINEIRO é a segunda comédia que escrevi para o teatro. Está sendo publicado em versões impressa e digital. Tente digeri-la, se for capaz.




sexta-feira, 29 de março de 2013

Escória

É noite e o casal se reencontra após outro dia exaustivo de trabalho.

Paranhos e Maria Flores.

Juntos há pelo menos duas décadas, muito já se amaram, muito já viveram, hoje não se suportam. Vivem juntos porque vivem juntos. Nesse quitinete muito mal localizado. Vivem juntos - ainda vivem, sobrevivem - porque não precisam se falar, tem a televisão de 20 polegadas que fala e pensa por eles. A televisão é nossa aliança, diriam. É ela quem nos deixa mansos, é ela quem nos acolhe e nos ajuda a digerir essa vida que não desce. Essa vida que cisma em nos fazer de escória. Graças a Deus a televisão existe, eles diriam. Só ela encobre todo o passado, todo o rancor, toda a enxurrada de equívocos que tem sido a vida disto que na aparência lembra vagamente um casal. E que está tão misturada e tão bem caracteriza a realidade brasileira.

Isso eles diriam, certamente diriam, se parassem pra pensar no assunto. Se não estivessem tão ocupados, assistindo a novela, o telejornal e o programa de auditório. Não fosse por isso, até responderiam. E ainda dedicariam todas as loas, todas as palmas ao solidário eletrodoméstico.

Mas hoje a televisão quebrou.

ESCÓRIA: UMA COMÉDIA RUDE NUMA NOITE ÁSPERA é meu primeiro texto escrito para teatro. Está disponível aqui. Aguardo sua visita.

 Abraços, Maurício.


 

sábado, 20 de novembro de 2010

A criança (II)

“Mãe.”

“O que foi, Yuri?”

Yuri era o filho mais velho. O relógio na cabeceira da cama marcava 3:15 da madrugada.

“Não consigo dormir. Meu irmão não deixa.”

“Seu irmão está dormindo, Yuri. Nem chorando ele está.”

“O que foi?”, Santiago resmungou, acordando. “Quem está chorando?”

“Nada”, a esposa falou. “Fica dormindo, vou levar o Yuri pro quarto.”

“Não quero ir pra lá. Tenho medo dele.”

“Medo do seu irmão? Que maluquice é essa?”

Santiago então despertou de vez. A palavra “medo”, saída da boca do filho, acendeu uma luz amarela no semáforo de seus temores.

“Eu levo ele.”

Pegando o filho nos braços, Santiago foi sussurrando enquanto seguiam para o quarto.

“O Yago é seu irmãozinho. Não tem por que ter medo dele. Ele vai ser o seu melhor amigo quando crescer mais. Vocês vão brincar muito juntos.”

“Ele não dorme.”

“Que história é essa.”

“Ele não dorme. Ele não fecha o olho nunca. Eu vi.”

Os dois chegaram no quarto das crianças. Santiago acendeu a luz e foi ver o bebê. Yago estava imóvel, os olhos abertos sem olhar para lugar nenhum.

“Yago?”, Santiago colocou no chão o filho maior e pegou o bebê. “Yago, você está bem?”

Assustado, Yuri correu para a porta e ficou olhando de lá. Santiago agitou levemente a criança, que enfim piscou os olhos e chorou.

“Pronto, pronto”, Santiago procurou acalmar o bebê. “Passou, meu filho, passou. É o papai.”

Quando Yago parou de chorar, Santiago recolocou-o no berço e ficou acariciando-lhe a barriga até fazê-lo dormir.

“Venha para sua cama, Yuri. Seu irmão está dormindo.”

“Não está.”

“Pare com isso. Você não tem por que ter medo dele. É só uma criança. Vem cá. Vem.”

O menino, ainda que temeroso, veio ficar do lado do pai.

“Olha. Ele está dormindo. Vê? Nenhum problema. Se ele acordar de novo, você me chama. Combinado?”

Yuri foi se deitar. Estava morrendo de medo do irmão, mas não falou nada.

*


Desde o dia anterior Santiago não trabalhava no livro que estava elaborando para a igreja. Temia escrever uma coisa e ler outra, certo de que o problema estava em sua cabeça. Passou orando a manhã de sábado e pedindo a Deus que lhe desse paz e serenidade para realizar seus afazeres, e que afastasse qualquer presença obscura que lhe estivesse rondando, e a seus filhos.

Num momento a sós com a esposa, começou a falar.

“Você sabia que o Yuri está com medo do irmão?”

Estavam na cozinha. A esposa preparava o almoço. Estavam esperando um casal de amigos da igreja.

“Sabia”, ela respondeu. “Isso é ciúme. Ele tem ciúme do Yago. Pensa que vai perder a atenção dos pais. Isso é normal.”

“E o Yago está bem? Você notou alguma coisa diferente nele?”

“Diferente? No Yago? Não. O quê, por exemplo?”

“Nada.”

Santiago já não sabia o que dizer. Bastava o Pastor para duvidar de sua sanidade. Durante o almoço com as visitas, falou pouco e a todo instante ia ver o filho mais novo no berço. Yuri, o mais velho, ia junto todas as vezes.

“O que ele tem, papai?”

“Nada, Yuri. Seu irmão é novinho, só isso. É mais frágil. Precisa de mais cuidados.”

“Eu também fui assim?”

“Foi. Igualzinho.”

“Eu também ficava sem dormir com o olho aberto?”

“Não.”

“Mamãe disse que você cuidava de mim quando eu tinha a idade do Yago. E que agora não tem tempo, por causa do trabalho. Vai ver é por isso que ele fica de olho aberto.”

“É. Pode ser. Mas não fique pensando nisso. Se alguma coisa acontecer de novo, me chame. Ou reze para Jesus. Você ama Jesus, não ama?”

“Amo.”

“Pronto. Isso é suficiente. Se você ama Jesus de verdade, nada pode te acontecer de ruim. Você vai estar protegido. Agora vamos voltar para a sala, senão nossos amigos vão achar que não são bem vindos.”

Tomando da mão do filho mais velho, Santiago saiu do quarto. Não percebeu, no entanto, que Yago acabara de abrir os olhos.

*


Às cinco horas da tarde as visitas haviam ido embora. Cansada, a esposa de Santiago foi deitar-se, enquanto ele ficou na sala. Colocando sobre a mesa uma folha em branco de papel, Santiago rabiscou frases soltas como quem derrama ração na vasilha e espera o cachorro vir comer. Escreveu “amor”, “Yago”, “Jesus”, “família”, e depois fechou os olhos. Rezou para que, quando os abrisse, fossem exatamente essas as palavras que iria encontrar.

Então ouviu o grito vindo do quarto das crianças. Era a voz de Yuri, e Santiago, deixando para trás a folha sobre a mesa, levantou-se correndo. Ao entrar no quarto foi deparar-se com o filho mais velho, descontrolado, gritando como se as chamas do inferno lhe subissem pelas perninhas curtas, com o corpo curvado para dentro do berço e as duas mãos tentando estrangular o bebê que era seu irmão.

A cena apavorante conseguiria por alguns segundos congelar os movimentos de um aterrorizado Santiago. Mas não tardou para que ele avançasse para dentro do quarto, libertando Yago dos braços do irmão e atirando para longe o filho mais velho. Yuri cairia no chão gritando, contorcendo-se como se ardesse por dentro. Santiago, com um filho inconsciente nos braços e outro gritando no chão, chamou diversas vezes pela esposa. Não era possível que ela não estivesse ouvindo. Ao mesmo tempo o telefone começara a tocar insistentemente, como que aderindo a um complô contra a sanidade de Santiago. Gritando pela esposa e, agora, também por Jesus, o desesperado pai tentou dividir-se entre reanimar o filho mais novo e acalmar o mais velho. Estava, no entanto, fracassando em ambas as tentativas.

No outro quarto, a esposa de Santiago apenas dormia.

Deixando Yuri debatendo-se no chão, Santiago foi até o telefone com o bebê nos braços. Precisava chamar uma ambulância. O filho mais novo não estava respondendo, nem respirando. Ao tirar do gancho o fone que ainda tocava, ouviu a voz do Pastor.

“Santiago?”, disse ele. “Estava tentando ligar para você.”

“Me ajude”, Santiago gritou. “Os meus filhos. Pelo amor de Deus. Os meus filhos. Yago não está respirando. Pelo amor de Deus.”

“Calma, o que está acontecendo? Onde está a sua esposa?”

“Chame um médico. Yago precisa de um médico. Yago está morrendo. Pelo amor de Deus. Ele não está respirando.”

“Fique calmo, estou indo para aí. Estou levando um médico, não se desespere. Já estou chegando, Santiago, tenha calma.”

“Pelo amor de Deus. Pelo amor de Deus.”
   
*


Ninguém, no entanto, conseguiria chegar a tempo. A fatalidade, quando vem, não respeita portas fechadas, grades, preces. Quando quer, vem e estraga o bem mais sólido e duradouro. Encontra brechas. Derruba represas. Foi assim com Santiago. No momento em que o Pastor entrou em sua casa, trazendo a ambulância pedida, o bebê já estava morto. Não resistira e sufocara nas mãos do próprio irmão. Yuri, por sua vez, após a crise que o levara ao fratricídio, perdera os sentidos e só no hospital iria recuperá-los. E no hospital permaneceu, sob tratamento, enquanto Yago era posto num pequeno caixão e depositado numa cova.

Durante a cerimônia, Santiago chamou o Pastor para um canto. Contou-lhe toda a história. Falou do medo que Yuri sentia do irmão, e do ciúme que ele achava estar por trás desse medo. Falou do temeroso sentimento vivido, na noite em que os olhos abertos de Yago plantaram dúvidas no meio de todas as explicações que ele pudesse formular sobre o que acontecia dentro daquele quarto que era mais frio do que o restante da casa. Santiago contou tudo, até o momento em que tirou um filho das mãos assassinas do outro. O Pastor ouviu calado.

“E os papéis, Santiago”, ele então perguntou. “Não houve mais mensagens?”

“Eu estava esperando que o senhor perguntasse.”

Santiago então tirou uma folha de papel dobrada no bolso.

“Imediatamente antes da crise de Yuri começar, ontem, minha esposa foi dormir e eu fiquei na sala. Sentado à mesa, peguei essa folha de papel e escrevi Amor, Yago, Jesus, Família."

Santiago então olhou nos olhos do Pastor. Controlava-se para não chorar.

“E então, Santiago?”, o Pastou quis saber. “O que havia no papel?”

As mãos dele tremiam, quando desdobrou a folha e mostrou o conteúdo. No papel estava escrito, com a mesma letra de Santiago: “Agora eu quero o outro filho”.



 (Continua.)

sábado, 13 de novembro de 2010

A criança (I)

Santiago sentou e pôs-se a escrever.

“Senhor, pela graça alcançada eu agradeço. Pela saúde, pela cura e pela luz, eu agradeço. Agradeço pelos dias de sol, por meus filhos e por minha esposa. Agradeço e reafirmo que é minha maior alegria poder servi-Lo agora e sempre.”

Precisou tirar os óculos para limpar uma das lentes que embaçara. Quando os recolocou, ficou assombrado com o que viu escrito na folha de papel.

“Eu sou a treva. Eu trago a dor. Eu conheço você. Eu quero a carne, o sangue e a alma dos seus filhos.”

Não conseguiu acreditar no que acabara de ler. Precisou ler de novo. E de novo. Continuaria relendo indefinidamente, se a esposa não entrasse no quarto que usavam como escritório.

“Escrevendo?”, ela perguntou. “Quer que eu traga um cafezinho?”

Com as duas mãos ele escondeu o texto. Tentou agir naturalmente.

“Não”, respondeu. “Obrigado, minha querida.”

Tentou também sorrir. Lutou para que o canto da boca não tremesse. Ela colocou a mão sobre o ombro dele, demonstrando carinho, e deixou o escritório. Santiago leu de novo o texto diabólico, e passou a mão sobre o papel. Não estava enlouquecendo.

Foi até a sala. O filho mais velho, de cinco anos, assistia televisão. O mais novo estava no quarto, no berço, em paz. Santiago voltou para o escritório com um pensamento na cabeça. Sentou-se de novo à mesa e, depois de olhar fixamente a mensagem que não escrevera, tomou de outra folha. Desta vez, escreveu apenas uma palavra.

“Fé.”

E ficou olhando a folha. Nada aconteceu. A palavra permaneceu a mesma durante todo o tempo. No intervalo em que fechou os olhos e suspirou, no entanto, alguma coisa acontecera. Não era mais “fé” o que estava escrito no papel sobre a mesa. Santiago levou as mãos à cabeça, sem conseguir compreender. Era outra coisa. Com a sua mesma letra.

“Sangue.”

A palavra estava ali. Para quem a quisesse ver. Como se fruto de uma mente perversa, exibicionista. Santiago sentiu medo. Medo dos próprios pensamentos que não controlava, da própria fragilidade. O demônio avança sobre os fracos, já havia lhe dito o Pastor. Santiago era fraco. Mas não seria desta vez. Não quando parecia haver uma ameaça sobre sua família. Não. Pegou o telefone e ligou para o Pastor. Precisava falar, disse a ele. Pessoalmente. Agora.

Quando desligou o telefone, foi para o quarto. Estava vestindo-se para sair, quando a esposa entrou.

“Aonde vai?”

“Preciso falar com o Pastor”, tentou de novo sorrir. “Não demoro. As crianças estão bem?”

“Claro. Como poderiam não estar?”

Santiago beijou a esposa e saiu. A igreja ficava a duas quadras apenas de casa, iria a pé. Iria a pé e raciocinaria. Desceu sozinho os sete andares de elevador e, ao chegar na portaria, ouviu o rumor que vinha da rua.

“O que aconteceu?”, perguntou ao porteiro.

“Acidente. Alguém enfiou o carro debaixo do ônibus.”

O porteiro não sabia se havia feridos. Não podia deixar o serviço. Embora ficasse na direção oposta da igreja, Santiago foi até o acidente. Atravessou a rua, virou a esquina. Seguiu o fluxo da multidão. E encontrou o ônibus da linha 433 com a lateral parecendo engolir um Palio prateado. Havia mortos. A ambulância ainda não chegara, e as pessoas aproveitavam para fotografar os corpos no asfalto com seus celulares. Sem saber por que, Santiago tirou do bolso o celular e imitou a morbidez da multidão. Fotografou várias vezes, os destroços, os corpos, as manchas de sangue, e então afastou-se para conferir as fotos. Abriu no aparelho o arquivo onde estavam as imagens e descobriu que um novo susto o aguardava. Só havia fotos de seu próprio rosto. Nenhuma do acidente. Apenas o seu rosto, no lugar onde deveria estar a morte. Santiago passou a andar de um lado para o outro da calçada, confuso, com medo. Entrou então num botequim. Pegou um guardanapo e pediu ao balconista uma caneta. Com a mão trêmula, escreveu no guardanapo.

“Morte.”

E fechou os olhos. Esperou. Quando abriu-os, não se surpreendeu por encontrar outra palavra. O que o assustou foi a palavra encontrada.

“Santiago.”

Estava enlouquecendo. Ou isso, ou era um ataque. Estava sendo atacado. Algo estava, de qualquer forma, para acontecer. Já acontecia. Dando meia volta, Santiago caminhou às pressas na direção da igreja.

*


O bebê acordara chorando, e a mãe foi até o quarto. O filho mais velho foi junto.

“O que ele tem?”, perguntou.

“Precisa trocar a fralda”, respondeu a mãe, depois de examinar o bebê. “Pega uma nova pra mim?”

O filho mais velho pegou. Ficou olhando atentamente enquanto a mãe tirava a fralda molhada e limpava o bebê, antes de colocar a nova.

“Vai olhando mesmo”, a mãe falou. “Um dia você é quem vai estar fazendo isso.”

“Eu não. Minha mulher é que vai fazer.”

“Que é isso?”, a mãe riu. “Homem também cuida de criança.”

“E por que é só você que cuida dele? Por que o papai não troca a fralda e limpa o meu irmão?”

“Porque o papai tá ocupado. Mas ele limpou muito o seu xixi e o seu cocô, sabia?”

“Limpou nada.”

“Limpou sim.”

Quando terminou, a mãe pegou o bebê e ficou passeando pelo quarto com ele nos braços. O mais velho foi jogar fora a fralda suja na lata de lixo que ficava na cozinha, e na volta viu a mãe recolocando o menino no berço.

“Está frio aqui”, reclamou ela.

Depois de cobrir o bebê e certificar-se de que estava tudo bem, a mãe saiu do quarto. O outro filho ficou, olhando para dentro do berço. O bebê não chorava, mas também não estava dormindo. Tinha os olhos abertos. Sem saber por quê, o irmão mais velho sentiu medo e saiu do quarto.

*

A mão de Santiago tremia, enquanto ele tentava escrever no papel que o Pastor lhe entregara. Mas acabou conseguindo.

“Deus é nosso Senhor e está em todos os lugares.”

Santiago olhou para o Pastor. Depois olhou de novo para o papel. A frase permanecia a mesma.

“Você está preocupado com alguma coisa?”, perguntou o Pastor. “Está tudo bem em casa, no trabalho?”

Santiago não conseguiu falar. Não compreendia. Sentia-se ao mesmo tempo confuso e desanimado. O Pastor estava achando que não passava de loucura dele. Santiago temeu que ele estivesse certo.

“Desculpe tomar o seu tempo.”

“Não tem por que se desculpar, Santiago. Todo mundo tem o seu momento de cansaço. De exaustão. Todo mundo precisa de um descanso, às vezes. Lembra Eclesiastes, 4:6: ‘Melhor é a mão cheia com descanso do que ambas as mãos cheias com trabalho, e aflição de espírito’. Venha, vamos tomar um café.”

Santiago estava envergonhado. Quis recusar, mas não poderia ser indelicado com o Pastor, que passara o braço por seu ombro e o levava até a cantina da igreja.

Sobre a mesa, o pedaço esquecido de papel trazia agora outra mensagem.

“Trago a danação e o inferno para o coração de todos os homens. Uma das crianças já é minha.”

(Continua.)

domingo, 7 de novembro de 2010

oSabeTudo.com





A descrição de oSabeTudo é "um site voltado para centralizar conteúdo de qualidade, nosso objetivo é formar a maior comunidade colaborativa da língua portuguesa onde todos podem ganhar dinheiro escrevendo de acordo com seu trabalho".

A política do SabeTudo é remunerar os colabores por textos publicados, ainda que a remuneração seja praticamente simbólica. Fui conferir, e deixei por lá o meu "Manifesto pela legalização da burrice", texto de humor escrito há tempos atrás. Quem quiser conferir, está aqui: http://www.osabetudo.com/manifesto-pela-legalizacao-da-burrice/.

sábado, 6 de novembro de 2010

Shvoong




Shvoong é um site/rede social internacional de resumos. Nele é possível encontrar comentários e sinopses de livros, filmes, peças e o que mais o conhecimento humano conseguir criar. Desde 2007 faço parte dele, quando resolvi postar por lá alguns comentários de filmes que publiquei em meu antigo site, O Cisco Tonitruante. Pois essa semana recebi um mail do Shvoong, e a curiosidade me fez voltar lá e botar mais resumos. O link para meus textos é http://pt.shvoong.com/writers/mauriciolimeira/.

sábado, 30 de outubro de 2010

Resultado do sorteio

Apenas duas pessoas se interessaram pela coletânea Servidor das Letras: Dani Carrara, de São Paulo, e Rosa Magalhães, de Teresina. Solicito a ambas que enviem seus endereços para mauricio_limeira@yahoo.com.br. Cada uma receberá um exemplar. Não haverá novos sorteios.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Garganta da Serpente


Editado por Agostina Sasaoka, A Garganta da Serpente é um portal/rede social que vem desde 1999 publicando conteúdo literário (contos, poemas, artigos). Nesta semana, um conto inédito meu, "Gerações", foi publicado por lá. Para quem quiser conferir, está em http://gargantadaserpente.com/coral/contos/ml_geracoes.shtml.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Laços

Foi um espírito que avisou a ela que ele não prestava.

Mesmo assim ela casou.

Um mês depois, o marido pôs veneno na coca-cola e ela não resistiu.

“Eu não te disse?”, o espírito veio perguntar depois.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Família pula do terceiro andar para fugir do 'diabo'

Uma família de origem africana que estava assistindo a TV pulou pela janela de um apartamento no terceiro andar de prédio da cidade de La Verriere (França) com medo do diabo. Na inusitada fuga, um bebê morreu.

Horas depois, a polícia esclareceu parcialmente o caso: o incidente começou quando um grupo de 13 pessoas estava assistindo a TV na sala. Um homem que estava nu no apartamento ouviu um bebê chorando e foi preparar a mamadeira. A esposa, ao ver o marido pelado, começou a gritar: "É o diabo, é o diabo!".

Em socorro aos gritos, a cunhada do "diabo" o esfaqueou em uma das mãos. Ele saiu pela porta da frente, e, quando retornou, os demais moradores, desesperados com a presença do "maligno" na residência, então decidiram sair pela janela.

O "diabo" pulou também, carregando uma criança de dois anos no colo. Ao chegar ao chão, ele correu e se escondeu atrás de um arbusto. A criança, o "capeta" e outros familiares ficaram feridos. O bebê chegou a ser levado a um hospital, mas não resistiu à queda.

Investigadores não encontraram qualquer sinal de alucinógenos ou ritual macabro no apartamento, segundo reportagem da BFM TV. A polícia ainda espera esclarecer muitos detalhes da história.

(Fonte: O Globo, http://oglobo.globo.com/blogs/moreira/posts/2010/10/25/familia-pula-do-terceiro-andar-para-fugir-do-diabo-335255.asp)

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Além

“Esse papo de disco de vinil rodado ao contrário de novo?”

Meu amigo se chamava Eric. Igual ao Clapton, ele dizia desde os tempos de Colégio Pedro II. Já estávamos formados e ele continuava dizendo aquilo quando apresentado a alguém. Se era um idiota, então eu também era, já que andava com ele. A questão é que ele jamais perdera alguns costumes da adolescência. Um deles era encontrar em tudo manifestações sobrenaturais.

“Se não acredita, então ouve.”

Era um disco da Legião Urbana. Logo a minha banda favorita. Pois Eric estava com o bom e velho LP no toca-discos e botou para tocar, rodando porém o disco ao contrário.

“Escuta só.”

Escutei. Não ouvi, no entanto, nenhuma mensagem satânica, e disse isso a ele.

“Escuta de novo”, ele insistiu.

Escutei de novo, e nada.

“Não ouviu a expressão Oxalá Belzebu?”

Ele tocou a porra do disco dez vezes, e em nenhuma delas eu ouvi oxalá belzebu. Fui acusado então de estar inconscientemente bloqueando meus ouvidos porque gostava do Renato Russo. Argumentei que ele, Eric, é que estava ouvindo o que queria ouvir, porque era um fanático paranóico sugestionável. E ficamos por isso mesmo. Achei melhor, então, mudar de assunto.

“O que você acha que atingiu a cabeça do Serra?”

“Bem lembrado. Deixa eu te mostrar uma coisa.”

Ele então mostrou no computador o vídeo do incidente em Campo Grande e o momento em que o candidato à Presidência da República José Serra teve a cabeça atingida por alguma coisa durante uma manifestação. Até aí nada demais. Mas Eric não podia ter deixado de descobrir no vídeo alguma coisa que ninguém havia percebido.

“Tá vendo isso? Aqui, no meio da multidão.”

Como eu nada visse, ele então selecionou um trecho da imagem na tela, ampliou e melhorou a resolução para me mostrar aquilo de que tinha certeza ser o rosto de uma figura diabólica abrindo-se num sorriso.

“Está vendo agora?”

“Não.”

“Porra. Esses óculos servem pra quê?”

Na volta para casa, enquanto caminhava contra o vento numa noite que prometia chuva, me dei conta de que invejava a imaginação fértil de Eric. Sua crença quase obsessiva no sobrenatural era a maneira dele reagir à secura, à tristeza, à covardia e à falta de sentido de que é feita a nossa realidade. Enquanto estava ocupando-se com tanto afinco em correr atrás de fantasmas, não via o quanto estamos sozinhos nessa existência, e o quanto somos incapazes de fazer alguma coisa concreta para reverter essa situação. Por isso nos refugiamos em templos. Por isso acendemos velas. Por isso adotamos um cachorro. Por isso casamos com quem não temos afinidade, o que dirá amor.

Foi com esse espírito que cheguei em casa e me atirei na cama. Pesado, triste e sozinho, sequer acendi a luz. Mas acabei deixando escapar em voz alta um apelo.

“Sobrenatural. Se você existe, esse é um bom momento para mostrar isso.”

Esperava qualquer coisa. Qualquer uma. Um ruído. Um objeto caindo. Uma trovoada. Qualquer som ou visão estranha, que viesse do nada e sem explicações. Nada aconteceu, no entanto. Se existia mesmo, o sobrenatural deveria estar dormindo. Com isso eu acabaria me rendendo ao desânimo e adormecendo também.

Ao acordar, a enfermeira já estava diante da cama. Parecia surpresa.

“O senhor dormiu bastante hoje.”

“Dormi? Tive sonhos curiosos. Lembranças da juventude.”

“Alguma antiga namorada?”

“Não, um amigo. Um velho amigo, já falecido. Se gabava de ter nome de músico. Engraçado que, no sonho, lembrei até de um sujeito que foi candidato à presidência. José Serra. Lembra dele?”

“Não, senhor.”

“Não é do seu tempo. Também já morreu.”

“O senhor precisa sonhar com gente viva.”

“Pois é, minha filha. Mas a única pessoa viva que conheço atualmente é você. Posso sonhar com você?”

“Depende do que o senhor vai sonhar.”

“Por que será que sonhei com essas pessoas? Estarei para morrer também?”

“Cruz credo, vire essa boca pra lá.”

“Preciso ir ao banheiro. Você me ajuda?”

“Ajudo.”

Chamava-se Cila. Na verdade, Priscila. Eu nunca concordei com o nome dela abreviado. Muito curto, para uma mulher tão grande. Mas era assim que ela queria. Cila. Então eu a chamava de Cila.

Perdera o marido para o câncer aos trinta anos. E perdera o filho, dois anos depois, para a violência urbana. Com cinquenta anos, me encontrou. Cuidava de mim como se eu fosse o pai dela. Não gostava de sair, não tinha vida social. Vivia para fazer de meus últimos dias uma coisa prazerosa. E estava conseguindo.

“Não gosto do senhor aí dentro com a porta fechada. Pode deixar aberta. Juro que não vou olhar.”

Era a mesma coisa toda vez que eu ia ao banheiro. O medo dela de que eu caísse e morresse. Coitada, não queria perder mais um. Mas e se eu caísse, e morresse, e daí? Minha vida não era tão boa assim para que eu quisesse segurá-la por mais tempo. Em todo o caso, naquela manhã pude terminar ainda vivo o meu xixi, lavar as mãos e abrir a porta para Cila.

“Olha”, mostrei a ela o vaso sanitário. “Tampa levantada.”

“Muito bem.”

Cila então me ajudou a voltar para o quarto. Passavam os dias, e caminhar e ficar de pé eram atividades que exigiam um esforço físico cada vez maior. Quando enfim cheguei até a cama e pude me deitar, estava ofegante.

“O senhor está bem?”

“Cansado.”

Havia preocupação nos olhos dela. Curioso como a idade muda os objetos de nossas aflições. Quando jovem, perturbava-me a possibilidade de não existir nada depois da morte. De que o fim fosse isso mesmo, apenas fim. Hoje me encontro a um passo dele e não estou dando a mínima.

“Talvez eu durma mais um pouco. Pode ir, Cila.”

“Vou ficar aqui.”

Segurei em suas mãos e sorri. Ela parecia emocionada. Talvez achando que eu estivesse me despedindo. Mas só estava agradecendo. Dizendo sem falar que ela era a pessoa mais gentil que eu havia conhecido em toda a minha vida. Então fechei os olhos.

Ao abri-los o apartamento estava vazio e diferente. Mais cinza. Sem cor. E sem nenhum sinal de Cila. Quando saí da cama, não me dei conta de que consegui fazê-lo sem ajuda. Percorri todo o imóvel e vi que estava sozinho em casa. E estava triste. Profundamente triste, com uma tristeza que sabia que não iria passar. Nunca.

Na janela, abri a cortina e vi as pessoas lá fora, na rua. Vivendo. Tive medo de todas elas. Não sabia explicar a razão, mas temê-las me pareceu algo natural e lógico. Por isso não fiz mais perguntas. A partir daquele momento eu me limitaria a olhar, de longe, coberto dessa silenciosa tristeza, o movimento daquelas criaturas distantes que respiravam, transpiravam e às vezes conseguiam sorrir.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Engano


Pobre menina que por causa da asma não respirava direito. O irmão menor achou que a bombinha era um revólver de brinquedo e foi dar tiros no playground. Quando voltou, a coitadinha estava morta.

sábado, 23 de outubro de 2010

Sorteio


 

O blog O ADVERSÁRIO está sorteando um exemplar da coletânea Servidor das Letras.

Se você estiver interessado, basta deixar um comentário nessa postagem ou enviar um email para mauricio_limeira@yahoo.com.br e responder:

1 - Como conheceu o blog?

2 - Do que você mais gosta no blog?

Comentários em outras postagens não serão considerados. O resultado sairá na semana que vem. Boa sorte.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Servidor das Letras

Foi ontem a premiação do 14º Concurso Literário do Servidor Público do Estado do Rio de Janeiro. Como o evento fez parte da comemoração dos 50 anos da Fundação Ceperj, foram proferidos muitos discursos de diretores e ex-diretores da instituição, bem como de secretários do Estado, expedição de diplomas de honra ao mérito e até execução do Hino Nacional Brasileiro.
A premiação mesmo começaria quase duas horas depois do que me avisaram por telefone. Meu "O conto do filho da bela mãe" ficou com o terceiro lugar e, além da premiação em dinheiro (que ainda estou esperando), fui publicado na coletânea Servidor das Letras.
Agora, a parte boa. Fiquem atentos, pois nos próximos dias sortearei exemplares da coletânea pros leitores do blog.

Eu me esticando pra apertar a mão do presidente da Ceperj



terça-feira, 19 de outubro de 2010

Uma noite com Paloma

De uma hora para outra ela havia esquecido tudo. Quem era, como se chamava, onde morava, quantos anos tinha, em que se formara, qual era o seu salário, o que usava por baixo do vestido. E, principalmente, o que viera fazer em meu apartamento. As lágrimas ainda enlameavam o rosto que eu considerava o mais lindo de todos, mas agora não havia mais um motivo aparente para que descessem dos olhos. Ela não sabia por que estava chorando, e olhava para mim como uma criança indefesa e perdida.

“Não se lembra de nada?”, perguntei. “Não se lembra de mim?”

Ela não lembrava. Nada lhe era familiar. Caíra num mundo desconhecido e eu era o anfitrião que a estava recebendo. Um mundo novo, onde o namorado que a abandonara não existia, e eu não era apenas o amigo fiel porém incapaz de despertar qualquer tipo de interesse mais profundo.

E então me dei conta de que não precisava mais ser apenas o amigo.

“Somos namorados”, falei, segurando-lhe as mãos. “Nos amamos. Estamos namorando há anos. Você não pode ter esquecido tudo o que passamos juntos.”

Contei-lhe então todos os momentos inesquecíveis que teríamos vivido. Descrevi nosso primeiro encontro sob a chuva. Nosso primeiro beijo. Os obstáculos que enfrentamos por não contar com a aprovação de seu pai. A vez em que ela quase se afogou na praia de Copacabana e eu salvei-lhe a vida. Ela ouvia e mais assustada ficava por não lembrar. Por não conseguir se ver dentro das lembranças que eu narrava. Cheguei a ficar com pena dela. Mas não voltei atrás.

“Você precisa lembrar”, insisti. “Procure fazer um esforço, meu amor. Olhe para mim. Não reconhece o meu toque, não reconhece o meu cheiro?”

E enquanto perguntava eu ia tocando-a, segurando-lhe as mãos, abraçando-a. Procurei não dar-lhe tempo para raciocínio, falando sem parar, aumentando-lhe a confusão e abrindo caminho para o beijo que não tardou. Que boca maravilhosa. Não sei se alguém  conseguiu alguma vez descrever tão bem a realização de um sonho, e certamente não serei eu a conseguir. Em todo caso, acredite, eu estava no mais perfeito êxtase quando nossos lábios se tocaram e minha língua começou a navegar pela região até então distante e cobiçada de sua boca. Ela se deixou beijar sem, no entanto, contribuir efetivamente. Mas aos poucos foi se entregando, e logo suspirava comigo quando alcancei a pele branca do pescoço e ali fui aumentando a intensidade de meus beijos. Paralelamente apertava-lhe a cintura, os braços, e não tardou para que minha mão lhe alcançasse o seio. Ela estava ofegante. Tentara evitar que a minha falta de pudor lhe descesse a alça do vestido, mas eu não apenas conseguira desnudar-lhe o seio como agora acariciava com a palma da mão o mamilo enrijecido.

Em minutos estávamos em meu quarto. Ela estava nua, embaixo de mim, e enquanto a penetrava eu perguntava-lhe no ouvido se ela se lembrava disso. Ela gritava que sim. Depois, sem parar de entrar e sair de dentro dela, enfiava-lhe o dedo atrás e perguntava, novamente, se ela lembrava. Sim, sim, era a resposta. Mesmo sem nunca ter feito amor comigo, ela lembrava de tudo. Aquilo foi o suficiente para me convencer de que, no fundo, sempre estivemos juntos. Se não nessa, em alguma outra vida paralela onde as coisas eram como deveriam realmente ser. Quando finalmente terminamos, ela virou-se para o lado, exausta, e adormeceu. Eu fiquei acordado, enternecido, admirando-lhe o sono. Era o mais feliz dos homens.

Seria, no entanto, retirado de meu estado de felicidade pelo toque do telefone. A fim de não fazer barulho, fui atender na sala. Era Tiago, o sujeito que, além de meu amigo, também era o ex-namorado da mulher que dormia em minha cama. Parecia arrasado.

“Oi, Tiago.”

“Juliano, você sabe para onde a Paloma foi?”

Sabia, sim. Foi para as nuvens. Eu a levei.

“Não, Tiago. Aconteceu alguma coisa?”

“A gente teve uma briga. Eu terminei com ela. Ela ficou muito abalada, tô preocupado, cara. Ela pode fazer alguma besteira. Ela não te procurou?”

“Não. Mas pode deixar que eu te aviso. Um abraço, cara.”

“Valeu, amigo.”

Agora voltamos à nossa programação normal, pensei, enquanto retornava ao quarto.

Paloma continuava estirada em minha cama, bela adormecida mergulhada nua em seus sonhos. Sem que ela despertasse tomei-lhe um dos pés e beijei-o delicadamente várias vezes, em toda a sua extensão. Beijava o dorso, os dedos, a sola, e nessa situação de abuso terminei por ver aceso novamente o desejo. Segurando pelo calcanhar o tão delicado pé de minha amada, comecei a me masturbar e não parei antes de ejacular fartamente em seus dedos. Ela continuava linda, fada, santa, mesmo com a profanação de sua pele por meu sêmen. Eu a olhava e esperava que, ao acordar, Paloma permanecesse amnésica. Mas estava preparado para o caso de isso não acontecer. Meu plano B seria dizer, simplesmente, com a cara mais assustada, que ela viera até meu apartamento após terminar com Tiago e, visivelmente bêbada e chorando, me seduzira e eu não resisti. Aconteceu. Não foi antecipado e nem era culpa de ninguém. Ela talvez ficasse chocada, mas entenderia. Não havia o que fazer. O ser humano era dado a comportamentos cuja explicação muitas vezes se perdia no meio das luzes e das trevas da alma. Por que então pedir razões aos gestos da alma, se a própria alma as dispensava?

Naquele instante o telefone tocou outra vez, e voltei para a sala para atendê-lo. Era o Tiago de novo.

“Cara, tem certeza de que ela não te procurou? Ela não te ligou?”

“Não.”

“Eu tô ligando pra casa dela e ninguém atende. Tô muito preocupado. Acho que aconteceu alguma coisa.”

“Por que vocês brigaram, afinal?”

“Ela tem um problema, mas não importa. A gente precisa encontrar a Paloma.”

A gente?

“Que problema ela tem?”

“Deixa pra lá. A gente precisa encontrar.”

“Que problema ela tem?”

“Ela tem umas perturbações. Faz umas coisas estranhas. Eu falei pra ela se tratar. Pra procurar um médico. Um pai de santo. Sei lá.”

“Peraí. Me explica isso direito. O que ela faz? Pra que ela precisa de pai de santo?”

“Nada. Esquece. Se ela te procurar, me avisa.”

“Diz logo o que a Paloma tem, porra.”

Eu já estava impaciente com Tiago, quando então ouvi um barulho vindo do quarto.

“Tiago, preciso desligar. Me liga daqui a cinco minutos. Liga pro meu celular.”

“Tá legal.”

Quando estava voltando para o quarto, tive a sensação de que iria me arrepender de ter mentido para Paloma, feito amor com ela e ejaculado em seu pé. E de fato o arrependimento começou ao ver a cama vazia. Paloma não estava mais lá. De alguma forma conseguira sair do quarto, passar por mim enquanto eu falava ao telefone com seu ex-namorado e sair do apartamento, deixando a porta aberta e um absurdo e escandaloso rastro de fezes pelo chão. O rastro seguia pela escada, por onde ela certamente havia descido, nua, sabe-se lá para onde e para quê. Olhando os degraus que se estendiam para o andar inferior, pensei em deixar que ela se virasse. Em não me envolver. Em voltar para casa e limpar o chão. Mas acabei descendo também, gritando o nome dela enquanto ouvia, bem longe, os pés descalços pisando ligeiros o mármore dos degraus. Aquilo não acabaria bem. Uma mulher correndo nua e toda cagada no meio da noite era caso de polícia. Eu deveria saber que ninguém fica muito tempo no paraíso com a mulher amada. Que lá embaixo as chamas do inferno me aguardavam para encerrar da pior maneira possível os momentos mais felizes de minha vida. Eu deveria saber.

Ao chegar na portaria estava ofegante. Paloma estivera por ali e ganhara a rua, diziam as pegadas sujas de merda que ela deixara. Tomei o mesmo caminho e, na bifurcação entre um beco escuro e a avenida, imaginei que ela tivesse entrado no beco escuro. Era o que eu faria, se estivesse correndo pelado pela rua. E foi a alternativa correta. Paloma estava lá, de pé, na sombra. Imóvel e de frente para um muro, como que aguardando alguma coisa sair dali. Fui me aproximando lentamente e repetindo seu nome com suavidade para não assustá-la. Ela não se mexeu nem falou, mas deixou-me chegar perto. Estava fedendo, mas mesmo assim eu a abracei.

“Está tudo bem, Paloma. Estou aqui com você.”

Mas não estava nada bem. Quando percebi no muro as sombras projetadas de um ponto atrás de mim, me virei rapidamente para confirmar que não estávamos sozinhos. Havia dois homens na entrada do beco, sujos, mal vestidos e possivelmente criminosos. Estavam parados, mas logo caminhavam em nossa direção.

“Não disse que tinha uma mulher pelada correndo pela rua”, falou um deles. “Olha ela aí.”

“Peladinha”, concordou o outro.

Tentei argumentar. Disse aos dois que minha namorada estava doente, e que eu a estava levando para casa. Tentei apelar para a compaixão deles. Mas não adiantou. Levei uma surra dos dois e tive de assistir caído no chão enquanto Paloma era violentada. Violentada, sim. Quem visse a cena poderia até pensar que ela estava gostando, mas aquela que abria as pernas e gritava para que enfiassem tudo não era ela. Não a minha Paloma. Não era, eu sabia, a mulher da minha vida abrindo as pernas para os criminosos sujos. Não o meu amor. Quando o celular tocou de novo àquela hora, tive dificuldade em pegá-lo no bolso e atender. Mas não foi difícil imaginar quem estava do outro lado da linha.

“Oi, Tiago.”

“E aí, cara? Alguma notícia da Paloma? Ela te procurou?”

“Procurou.”

“Ela te procurou? E como ela está?”

Naquele instante, pude perceber que mais homens imundos e sem ocupação apareciam no beco. Todos rodeavam Paloma, como que esperando a vez.

“Mais ou menos”, respondi.

“Cara, eu precisava conversar com ela. Precisava dizer que apesar de tudo eu gosto dela. Mas que, com esse problema que ela tem, não dá. Não dá.”

“Ela não vai te ouvir agora.”

“Fala pra ela, cara. Você é meu amigo. Diz pra ela.”

“Vou tentar. Tchau.”

Não sei até que horas da madrugada tive de ficar olhando o aterrador e repetitivo espetáculo dos homens cercando Paloma, abaixando as calças e entrando em suas intimidades. Houve um momento em que, vencido pelo cansaço, adormeci. Meus olhos só iriam se abrir com o céu já claro, e pude então ver que os mendigos estupradores haviam ido embora e deixado minha mulher em paz. Paloma estava deitada na sarjeta, imunda, violada e inconsciente, e com o corpo cheio de dores eu fui até ela. Coloquei-a em pé. Ajudei-a a caminhar. No caminho para minha casa, passamos por uma igreja e ela pediu para ficar lá dentro. E foi nesse momento que reconheci, emocionado, a Paloma que eu amava. Era o meu amor falando de novo, o meu amor havia voltado para mim. Tratei de atender o seu pedido e, influenciado pela religiosidade do lugar, comovido por reencontrar a mulher da minha vida, pedi Paloma em casamento. Confessei que sempre a amara. Admiti o quanto sofria vendo-a nos braços de Tiago, o quanto sonhava com o dia inalcançável em que estaríamos juntos, o quanto queria sorrir quando ela sorria e o quanto queria chorar quando ela chorava. Confessei que precisava dela, como precisava da esperança para acordar todas as manhãs e acreditar que seria capaz de sobreviver a mais um dia sem ela. Precisava dela como precisava de fé, como precisava de alguma coisa que me desse sentido nessa vida tão infeliz. Enquanto falava as lágrimas desciam-me pelos olhos e eu segurava as mãos de Paloma, implorando que me amasse como esposa e prometendo fazê-la a mais feliz de todas as mulheres.

Paloma, no entanto, recusaria o meu pedido e tiraria, de dentro das minhas, as suas mãos. Antes que eu pudesse argumentar, insistir para que ela pensasse no assunto, porém, um padre veio ter conosco e, cobrindo-lhe a nudez, levou Paloma para dentro. Sozinho na igreja, atendi o celular que tocou de novo. E, de novo, era o Tiago.

“Ei, cara. Você falou com a Paloma? Deu o meu recado?”

Nesse momento me levantei de onde estava sentado e fui até a pia batismal. Largando lá dentro o celular, deixei que a voz de Tiago se afogasse na água benta e fui para casa chorar minhas mágoas.