quarta-feira, 30 de julho de 2014

Sonhar



Acordou sozinho na cama. Chamou o nome dela.

Acordar era se sentir perdido sempre.

Estendeu o braço para o lado e encontrou o bilhete que ela deixou:

“Fiquei do outro lado. No sonho.”

Enquanto a imagem se desvanecia, ele acordava de vez.

A saudade em milhões de cacos de vidro se enterrava em sua carne.

*

Foram precisos 50 anos para sonhar com ela outra vez.

Ela não envelhecera. Tampouco se importava com a idade dele.

Desta vez ele não acordou.



terça-feira, 29 de julho de 2014

O bar no fim do mundo



“O que uma mulher como você procura num lugar como este?”

O bar parecia ter sido construído no lugar exato da indicação do letreiro à entrada. Talvez não no fim do mundo. Talvez outra palavra, de baixo calão, com duas letras, descrevesse melhor o lugar e a região.

A mulher respondeu sem olhar para o homem:

“Evidentemente, procuro sexo.”

O homem a levou então para os fundos do bar. Passado algum tempo, a mulher voltou sozinha.

Veio outro homem. Nova corte, e foram os dois para os fundos do bar. Só ela retornou.

A cena se repetiria algumas vezes ainda, no decorrer da noite. Quando a mulher afinal se satisfez, foi embora.

Só foram dar conta dos corpos mutilados nos fundos do bar quando o cheiro se tornou insuportável.



segunda-feira, 28 de julho de 2014

Moradores



Ela nunca saía de casa.

Às vezes alguém via o rosto pálido na janela do segundo andar. Mas não havia curiosidade suficiente para querer saber mais da mulher lá dentro.

A vida era muito curta para se preocupar com gente louca.

Quando invadi a casa, era criança. Entrei pelos fundos. Me esgueirei pelos cômodos empoeirados como um rato.

A casa estava velha, suja e entregue à própria sorte.

O segundo andar não era diferente. A casa cheirava mal. Da porta do quarto vi a mulher sentada.

Então descobri que ela não era a única morando ali.

Tentei fugir, mas era tarde demais.

Que pena.

Eu nunca mais saí daqui.

A vida é muito longa para esperar passar.



domingo, 27 de julho de 2014

Sombras

"Pela primeira vez, o simples fato de estar de pé no meio da rua causou-me medo, quase horror, e passei a olhar com desconfiança para cada esquina, cada entrada, cada recanto onde uma pessoa pudesse observar outra sem ser percebida. Olhava as paredes e demais superfícies esperando ver, a qualquer instante, o movimento de sombras deformadas e agressivas, prestes a pularem de seu mundo para retomar o que haviam começado."

(Trecho do romance O ADVERSÁRIO)





sexta-feira, 25 de julho de 2014

Além



“Despedidas são sempre dolorosas.”

Estava falando sozinho. Lá fora, o mundo confirmava que, como ela, poderia muito bem passar sem ele.

Com o cano apoiado na cabeça, ele puxou o gatilho e caiu logo depois.

A cara metida na poça do próprio sangue.

Quando se levantou, estava tudo embaçado. Foi até a janela, e as ruas estavam vazias.

Foi até a rua, e ele mesmo estava vazio. Andou de um lado para o outro, afugentando moscas que o perseguiam. Pisou sem querer em cocô de cachorro. Na banca de jornal, todas as publicações vinham em branco. Entrou numa lan house vazia. Não havia conexão.

Por toda parte, era possível ouvir o saxofone do Kenny G.



quinta-feira, 24 de julho de 2014

Carona



Chamou.

“Venha comigo. Aqui é frio. E a essa hora pode ser perigoso.”

Ela olhou no relógio. De fato, era tarde. E, de fato, a estação vazia poderia ser perigosa.

Ela aceitou.

Dentro do carro ele ia falando de estrelas, pontes, pastas de cartolina, muros, canto gregoriano, Tales de Mileto e cerveja sem álcool. Quando falou em astrologia, ela ficou tão excitada que pediu para que ele parasse o carro.

“Parar o carro? Aqui? Aconteceu alguma coisa?”

“Aqui. Agora. Depressa.”

Ele parou enquanto ela desabotoava a blusa e levantava a saia. Ele abriu o zíper e desajeitado se deitou em cima dela. Penetrava com tanta voracidade que não percebeu quando pequenos vermes começaram a sair da boca que o beijava. Pequenos vermes brancos, moles e vivos, em quantidades cada vez maiores.

Quando os vermes começaram a sair também das narinas e dos olhos, ele viu. E gritou, afastando-se, saindo de dentro dela. Acendeu a luz no interior do carro. Os vermezinhos escapuliam também da vagina que ele acabara de penetrar, aos montes. Ela ainda gemia, como se a trepada não tivesse terminado, movia-se em convulsões, e ele então se pôs a gritar de horror e de nojo.

Ele saiu correndo para fora do carro. Precisava chamar alguém, a polícia, ambulância. Mas o celular ficara dentro do carro. Com ela. E os vermes. Com a própria saliva tentou lavar o pau. Desesperado com a possibilidade de começarem a sair vermes dali. Acabou vomitando.

Do carro vinha um cheiro horroroso de coisa podre. Quando uma viatura da polícia afinal surgiu no horizonte, ele acenou em desespero.

Ninguém acreditou no que havia dentro do carro.