quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Possessão




Ela dera para falar enquanto dormia.

“Eu?”, ela duvidou. “Claro que não.”

Naquela noite, ele então gravou com o celular as palavras incompreensíveis que ela murmurava. Quando mostrou a gravação, ela negou.

“Essa voz não é minha.”

“Não parece mesmo você. Mas você sabe que língua é essa?”

“Parece latim.”

“Mas você não fala latim.”

“Sinal de que não sou eu.”

Ele procurou um tradutor de latim. Descobriu que a frase gravada era:

“Veniam ad te, et ducam te ad infernum.”

Que, traduzindo, significava:

“Agora eu virei a ti, e tornarei a trazer-te para o inferno.”

Achou melhor não mostrar para ela. Mas quando ela acordou no meio da noite urrando, com as roupas rasgadas, as pernas abertas e a região da virilha expelindo sangue, ele saiu correndo e voltou com um padre.

Mas era tarde. Sua esposa havia ido embora.


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Mudanças no horizonte




Havia uma multidão à porta da igreja.

O padre havia fugido.

A tempestade acabara de cair.

Quando a mulher deu a luz, anoiteceu.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

No meio da noite




“Pai.”

“O que foi, filho.”

“Não consigo dormir. A cama está balançando.”

“Vamos lá ver isso.”

“Não.”

“Por que não? Vamos lá no seu quarto ver isso.”

“Ele disse pra eu não ir.”

“Ele quem?”

“O moço.”

“Moço? Que moço, filho?”

“O moço que tá no meu quarto.”

“Tem alguém no seu quarto?”

“Ai, Armando não vai lá, pelo amor de Deus. É ladrão. Um ladrão invadiu a nossa casa.”

“Volta pro seu sono, Teresa. Filho, fica aqui com a sua mãe que eu vou lá ver, tá?”

“Tá.”

“Cuidado, Armando, cuidado. Leva uma arma.”

“Tô levando o chinelo.”

“Fica calmo, tá filhinho? O papai já vem. Você não precisa ficar com medo, tá? A mamãe tá aqui. Você tá com medo?”

“Não.”

“Puxa vida, o seu pai tá demorando.”

“O papai morreu, mamãe.”

“Morreu? Que história é essa, menino! Não diz uma coisa dessas! Quem te disse que o papai morreu, hein? Quem disse uma barbaridade dessas?”

“O moço.”

“Que moço? Que moço é esse?”

“O moço que tava no meu quarto. E agora tá aqui.”

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Viuvo



Estava bêbado. Negava, mas estava. Também negava estar sofrendo, mas sofria.

A janela convidava.

Ele lembrou quando conheceu a mulher, no balcão da loja. Quando retornou no dia seguinte, e nos demais, só para vê-la. Lembrou a cara que ela fez, quando recebeu as flores que ele comprou. A primeira vez que se deram as mãos, depois do expediente, quando ele a levou em casa, e o primeiro beijo, uma semana depois. Lembrou-se dela na cama, naquela mesma cama onde ele estava sentado, bêbado (isso ele negava). Lembrou-se dela avisando antes: É minha primeira vez. Lembrou-se da vontade de dizer que era a primeira vez dele, também, só para agradá-la. E da felicidade que acompanhava o amor. Lembrou-se das horas contadas no trabalho, e de como saía às pressas para ir ao encontro daquela que amava. Lembrou-se do dia em que ela lhe apresentara os pais. Lembrou-se dos planos para o futuro, lembrou-se do pedido e lembrou-se da resposta. Lembrou-se do padre, e do coração que não cabia mais no peito, de tanto amor. Lembrou-se das juras: para sempre? Para sempre. Para todo o sempre.

Então se lembrou da nuvem negra que veio se acomodar sobre a vida dele. Lembrou-se da figura estranha que ela disse que a acompanhara na rua, e que passara a enxergar por toda parte. Lembrou-se do cheiro de enxofre enquanto ele trabalhava no encanamento da casa, e do que vira ao entrar no quarto.

Então não quis mais lembrar.

Admitiu que estava bêbado. Estava, sim.


Olhou para a janela, que convidava para ver o amanhecer de perto. Depois de refletir, à maneira dos bêbados, engoliu os últimos cinco goles do que tinha dentro da garrafa. E aceitou o convite.



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Classificados




“Esta é a minha casa. Entre.”

Ela entrou e o acompanhou pela sala. O cheiro quente de sangue a encheu de náusea, enquanto ele seguia no meio de partes decepadas de pessoas, pernas, braços, cabeças com os olhos ainda abertos, que se espalhavam desorganizados no chão e sobre os móveis.

“A casa é grande”, ele prosseguiu. “Lá pra dentro tem cozinha, um banheiro e mais dois quartos. Eu fiz um porão lá embaixo, pra poder trabalhar sossegado. Mas este você não precisará limpar.”

Sentiu que a pressão baixava. As moscas em torno dos pedaços de carne morta zumbiam tão alto que quase abafavam a voz dele. Então ela respirou fundo e olhou para cima, esperando com isso evitar um desmaio.

“O salário é bom”, ele falou, sorrindo. “Só peço um pouco de discrição. Você aceita o serviço?”

A pressão começava a voltar ao normal. Ela olhou ao redor e viu que a porta ainda estava aberta. Então respirou fundo novamente e aceitou o emprego.


quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Enfrentamento




Todas as noites ele saía e enfrentava a solidão juntando-se aos anônimos, bêbados e drogados, que nasciam como fungos nos recantos úmidos e escuros da cidade.

A cidade que se acabava, engolindo os seus habitantes.

Todas as noites ele enfrentava a solidão, e todas as noites retornava para casa com um pedaço a menos de humanidade, e com o eco da gargalhada alheia soando nos ouvidos.

Era vencido todas as noites.